Férias. Estou saindo para uma viagem, volto em janeiro. Então, desde já, desejo a vocês, no ano que vem aí, muitas realizações, esperança e um amor exuberante e, essencialmente, bem sucedido. Agradeço a companhia e carinho neste ano que se vai. Da intensa busca de mim mesma, somewhere over the rainbow, aconteceu este blog. O sucesso dele, pelo número de acessos, 80665 desde a sua criação em 27 de abril de 2006 e sua menção em um trecho utilizado na prova de vestibular da Universidade Federal de Pelotas, não é mérito meu, e sim das autoras dos textos que aqui postei, escritoras lésbicas, ativistas, fortes, corajosas, feministas que apaziguaram com o saber a angústia das minhas incompreensões, poetisas heteros, que me arrepiaram os sentimentos com emoções à flor da pele; dos sites pioneiros aqui mencionados como fonte; das pessoas que nos representam através de organizações que lutam pelos nossos direitos pressionando parlamentares para a aprovação de projetos de leis que nos beneficiem e de vocês que gentilmente o acessam. Por entre os comentários aventurei-me por outros blogs, amizades queridas eu fiz, e nas aflições e ansiedades de duas meninas me reencontrei menina, e percebi, que não fui a única a caminhar entre erros e acertos, verdades e mentiras, realidades e ilusões, e em seus caminhos deixei minhas pegadas de mulher. Abaixo, trechos do que Mara* deixou por aí, para quem quiser me conhecer um pouquinho mais. Beijos e até mais.
Mara*
“Sou uma delas. A chamada coroa, grisalha. Não optei pela “solteirice”, mas vivi a opressão, a repressão e a ditadura. Eram os anos sessenta. Anos terríveis, anos das "mulheres de Santana", anos da Tradição, Família e Propriedade. O desquite foi aprovado, grande avanço. Desquitei-me. Mulher desquitada, puta. Estes, eram os anos setenta. Terríveis também. Com quase quarenta anos assumi o que eu sou, lésbica.”
“Sou uma lésbica que continua no quentinho do útero lesbiano, o armário. Passei por dois casamentos héteros, e sai deles com dois filhos. Um deles homofóbico. Faz uma idéia? Vivi de amores platônicos. Quando decidi ser feliz, a experiência foi traumática. Tempo. Dizem que cura. As minhas cicatrizes continuaram abertas, pútridas, por um bom tempo. Gostaria de carregar bandeiras pela causa homossexual, faço o que posso por ser limitada e por uma questão de sobrevivência.”
“Sou de escorpião. Sou oito ou oitenta, não existe meio termo, ou amo ou odeio. Nasci em São Paulo, na Móoca. Atualmente moro numa pequena cidade do interior de São Paulo, não tenho o que conversar com as pessoas daqui. Desde sempre convivi com a solidão, aprendi a gostar.”
“Melhor parar...E relembrar das que, como eu, falaram de política e quiseram mudar o mundo, usaram bata indiana, dormiram em barracas deixando-se picar por pernilongos porque amavam a liberdade, tomaram cuba libre, assistiram Bergman e Monicelli, carregaram Marguerite Yourcenar e Simone de Beauvoir no fundo de suas multicoloridas sacolas hippies...Hoje, com cinquenta e tantos anos, diabolicamente riscadas por pés-de-galinhas e marcadas por celulites que as fazem tão humanas, tão reais...”
“Prefiro as frases curtas de um momento, poéticas e sinceras como o hai-kai. Gosto dos irônicos e sarcásticos, como você, assim sou também. A ironia é uma das mais refinadas armas. Por estes dias reencontrei dois textos geniais, “Se os tubarões fossem homens” de Bertold Brecht, que sabia usar a ironia como ninguém, e “Os três mal-amados” de João Cabral de Melo Neto. Os mal-amados são João, Raimundo e Joaquim, e me prendo a Joaquim, o devorado pelo amor. Como romántica também sou, concluí, que às vezes é preciso destruir, para um começar de novo, sem medos. Já que tudo é canibalizado, é preciso partir do zero, com um amor que se entrega, sem reservas, e que se opõe ao egoísmo do eu, para formar o nós.”
“Fui entender das minhas inquietações, dos meus desejos, do porque das inúmeras mulheres que povoavam os meus sonhos, através da Cassandra Rios. Numa sessão de cinema, esqueceram um embrulho na cadeira ao lado, eram dois livros dela. Tinha lido até a metade do primeiro, quando minha mãe se deu conta do que se tratava e aos berros me fez jogar no lixo “aquela pornografia”...”
“Cansei de ser invadida por “servos e servas de Deus”, que repetem até a exaustão, como papagaios, questões e passagem bíblicas que já não fazem qualquer sentido nos dias atuais. Fui obrigada a estudar em colégio de freiras. Ainda não consigo explicar e entender, essas mensagens de evangélicos furiosos com o meu blog. Por que essa gente frequenta um blog gay? Pregação para uma "pecadora"? Ou será que eles acessam para checar se existe alguma sacanagem e frustrados despejam toda a sua ira em nome do seu deus? Mistério!!!"
“E colocamos nossa máscara, e não trocamos, e não mudamos e não acrescentamos. Por medo. Ensaiamos, mas não tentamos vencer as nossas dificuldades, a timidez. E no vai e vem, não ousamos abrir a janela e tocar o que está ao alcance de nossas mãos e de nossos olhos.”
“E a vida ziguezagueando passou por mim. E me assustou. O sorriso fácil foi embora. Calada, apenas ouvia. Não tentava entender, não mais. Como foi que deixei escapar a pureza dos sentimentos? Fiquei só. Cicatrizes e máscaras. E solidão.”
"Passei a minha infância e adolescência, absolutamente sem nenhuma informação sobre sexualidade, naquela época esse assunto era tabu. Cassandra Rios, você já sabe disso, foi quem me revelou a existência do amor de uma mulher por outra, ela me fez compreender o porque dos meus estranhos desejos, dos meus sentimentos diferentes. Preferi a mordaça e repeli qualquer sinal de desejo que eu tivesse por outras meninas, e me define como hetero e engravidei. Tive este filho com dezessete anos, fui obrigada a casar e quando pude, descasei. Desquite-me e depois de lidar com todos os meus fantasmas, pensei ter me tornado uma mulher “normal”. Casei-me pela segunda vez. E descasei. Enfim, aos trinta e oito anos aconteceu de aparecer à pessoa que pensei, me completaria. E foi uma igual. Policial, mãe, como eu, de dois filhos. Descobri o amor e também o terror. Caminhava sobre o fio da navalha. Instável, num instante ela queria, de peito aberto, chutar o pau da barraca, como dizem as meninas de agora, em outro momento se recolhia no mais terrível mutismo e desaparecia. Não suportou a pressão e o suicídio foi a sua solução. E eu recorri à solidão. Foram doze anos na mais absoluta solidão. E chorei o tempo perdido. E chorei as decisões equivocadas. E esse tempo curou meus machucados."
"Hoje, tenho uma visão totalmente diferente da solidão, eu a celebro, ela é positiva, é o momento de eu ser eu mesma, ter o meu próprio espaço. Obriguei-me a procurar aquela menina, que na matiné de um cinema encontrou os livros de Cassandra e sorri por descobrir que ela não morreu, apenas estava adormecida e uma bela sacudida a fez despertar.”
“Moda vem, moda vai. No meu tempo de garagem, e põe tempo nisso, tínhamos a luz negra, todas íamos de roupa branca, prá ficar fosforescente. Depois passamos para luz estroboscópica, várias luzes, com várias cores, e aquilo girava e girava, e nossa cabeça também, de tanta cuba libre, coca-cola com rum. As meninas iam para se agarrar com os meninos, eu na minha, no escurinho só sonhando com as danadinhas, tudo na surdina, camuflado...nem eu sabia o por que do friozinho na barriga quando uma menina me encantava...Filha da puta de vida...Vim descobrir isso uma porrada de anos mais tarde, sentir o gosto então, pôe mais anos aí.”
“Perigosa...É aquela mulher que, quando você menos espera, te põe de quatro, e como diz o poeta Zé Ramalho, te faz gemer sem sentir dor, na maciota. É fatal, você morre por ela a cada noite, imaginando e suspirando...Ela é cruel, muito cruel.”
”As frases de efeito são ótimas não é? Como se resolvessem tudo num piscar de olhos...Que o amor seja infinito enquanto dure. Tão simples e por isso tão belo. O “poetinha” sabia com ternura pastorear as emoções. Por longos anos a minha cabecinha, como a sua, também andou bagunçadinha, meti os pés pelas mãos...Tinha tanto medo do preconceito...Não é nem um pouco confortável ter uma identidade sexual e apresentar outra às pessoas, muito menos confirmar nossa real orientação para sociedade. Ainda tenho medo, sou tão covarde!! Concordo com a Nina Lopes: "Nunca vou dizer que todos os gays devem se assumir publicamente, pois cada um sabe da sua história e o que isso vai gerar."
"Já amei como você, longa e fortemente. Passou. Segui em frente sem olhar para trás, sem relembrar o que não foi feito, o que não foi encontrado ou vivido. Dei-me a chance de recomeçar, e amei novamente, e estou amando e amarei se este amor não der certo. Estarei sempre de braços abertos para um eterno aconchego.”
"Há minutos, ainda há poucos minutos, começou mais um dia (sei que sabes, que saberás sempre que dia é hoje). Estou aqui, em frente a este monitor, tentando ver para lá da tela, tentando, no meio deste silêncio, ouvir-te desse lado dizer-me simplesmente: «Olá. Boa noite. Dorme bem.». Será que se eu encostar mesmo o ouvido à tela te ouvirei dizer-me: «Boa noite. Dorme bem.»? E se mergulhar dentro dela? Já encostei o ouvido ao telemóvel, mesmo sabendo que não está estabelecida nenhuma chamada, mesmo que no visor apenas apareçam as horas (as horas, as horas...) e a operadora. Não está lá o teu nome a piscar, não estás a ligar-me, não queres falar comigo. Já encostei o ouvido ao telemóvel só para ver se do outro lado surgiria um fio da tua voz, mas nada. Nada. O silêncio. Só o silêncio. Então, deixo-me submergir no sono, no sonho. Fecho os olhos e peço com todas as forças que tenho que ele venha depressa, asinha, asinha! E ele às vezes faz-me a vontade, outras deixa-me alguns minutos, que chegam mesmo a transformar-se em horas, à espera. Mas é quando o sono me encharca que te vejo surgir, ali, no meu real imaginário, linda como sempre, linda como nunca. Inclinas a cabeça sobre a minha e cheiras-me os caracóis. E beijas-me a testa, o rosto, os lábios. Desperto. Sorris para mim e dizes-me: «Vá, levanta-te!» e eu ergo-me, ainda incrédula da tua presença. Levas-me pela mão a atravessar os rios, os mares, a revisitar todos os lugares que são nossos, a ouvir todas as músicas que foram cenário sonoro dos nossos encontros. Levas-me pela mão ao nosso mundo, àquele mundo só nosso que é este em que ainda agora vivo. Depois, deixas-me ficar sentada naquela cadeira onde pela primeira vez me beijaste e aproximas-te da janela. Abres a portada, sobes ao parapeito e, abrindo os braços, voltas a cabeça para mim e deixas-te afundar no escuro daquela noite em que pela primeira vez nos beijamos. Corro para ti. Deixo para trás os livros abertos, as canetas, as folhas de papel sobre a mesa e grito o teu nome tão alto que desperto estremunhada do sonho. É quando te abeiras novamente de mim, inclinas a tua cabeça sobre a minha para me cheirares os caracóis e me beijares outra vez, mais uma vez. E como na canção que tu mesma me deste a ouvir pela primeira vez, digo baixinho «Olá», enquanto tu sorris e me dizes «'Inda bem que voltaste». Por isso mesmo, nesta como em todas as noites, vou ali ter conosco, no meu real imaginário."
(texto da criadora do blog português "Assumidamente")
Sistema
Sentada numa cadeira onde estive sentada por dezenas de vezes, esperei o promotor entrar na sala de audiência. Sete anos aguardando pela Justiça, a Justiça tarda, mas não falha, não é o que dizem?
Talvez o juiz adie de novo - o promotor falou-me ao ouvido - , mas não desanime, hoje justiça será feita - e quando fui chamada para testemunhar, ele ainda cochichou: não complique, seja apenas sincera.
O advogado de defesa aproximou-se e falou-me com desdém: descreva o que aconteceu naquela noite.
- Fui estuprada.
- Detalhes, por favor.
- Prefiro não — respondi secamente.
- E por que não?
- Porque me é penoso...Difícil de lembrar.
- Difícil de lembrar?! Ele virou-se em direção ao juiz: excelência, esta mulher tem problemas de memória. Não é uma testemunha confiável. Peço que as acusações sejam retiradas e o processo arquivado.
- Não! - gritei - eu quis dizer que me é penoso de...
- Nada mais a perguntar! - falou o advogado - estou satisfeito.
- Mas...
- Retire-se - disse o juiz.
Voltei à minha cadeira de novo, lábios cerrados, rezando para que as lágrimas surgissem no meu rosto, mas os sete anos de espera me secaram, não os sete anos de constantes adiamentos e sim, sete anos tentando não esquecer, reviver tudo, o rosto cruel, as mãos calejadas, o cheiro do suor...
No saguão, o promotor aproximou-se com ar compungido: desculpe-me, mas você sabe como é.
- Como é o quê?
- O rapaz é de boa família, houve acordo e...
Agarrei minha bolsa, apertei-a junto ao peito como se quisesse esmagá-la. Como se fosse ela a culpada.
Preconceito
Quando Aída Curi* foi currada,
estuprada,
violada,
morta por três homens,
ouvi gente puritana
dizer ainda: — "Bem feito!
Quem mandou ser leviana?"
***Aída Curi, moça jogada de um prédio na Avenida Atlântica (Copacabana) em 1958 pelo porteiro Antônio, por Ronaldo Castro e pelo menor Cássio Murilo. O homicídio teve repercussão nacional numa época em que se falava muito nos jornais da juventude transviada de Copacabana.
(o texto ‘Sistema’ é de Dominique Lotte, o poema ‘Preconceito’ é de Leila Míccollis)
ABGLT
Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros
Presidente: Toni Reis
Vice Presidente - Lésbicas: Yone Lindgren
Vice Presidente - Trans: Liliane Anderson
Secretário Geral: Cláudio Nascimento
Secretário de Direitos Humanos: Marcelo Nascimento
Secretário de Comunicação: Léo Mendes
Secretário de Finanças: Beto de Jesus
A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros – ABGLT, foi criada em 31 de janeiro de 1995, com 31 grupos fundadores. Hoje a ABGLT é uma rede nacional de 165 organizações, sendo 109 grupos de gays, lésbicas, travestis e transexuais, e mais 56 organizações colaboradoras voltadas para os direitos humanos e Aids. É a maior rede GLBT na América Latina. A missão da ABGLT é fortalecer e organizar entidades de gays, lésbicas, travestis e transexuais para promover a construção de uma sociedade livre e igualitária. Princípios e valores: ética, transparência, compromisso, integridade, diversidade e solidariedade.
Atualmente a ABGLT tem cinco linhas de trabalho prioritárias, que são:
- Brasil Sem Homofobia;
- Resolução Brasileira na ONU, sobre Orientação Sexual e Direitos Humanos;
- Advocacy para aprovação de leis e garantia de orçamento para políticas afirmativas voltadas para GLBT;
- Garantia da manutenção de recursos para prevenção e assistência em HIV/Aids para gays e outros homens que fazem sexo com homens, diante da política federal de descentralização para os estados e municípios;
- A promoção do Estado Laico.
Algumas destas linhas de trabalho são apoiadas por projetos específicos e, além disso, a ABGLT, através de organizações afiliadas, executa o Projeto Somos, de capacitação de grupos GLBT nas áreas de prevenção e assistência em HIV/Aids e a defesa e promoção dos direitos humanos. O projeto surgiu como uma das respostas ao número alarmente de casos de Aids entre homo e bissexuais. O nome do projeto é uma homenagem a um dos primeiros grupos gays do Brasil, o SOMOS - Grupo de Afirmação Homossexual, que atuava em São Paulo no final dos anos 70.
(informações e logotipo retirados do site da organização)
Presidente Lula recebe ABGLT
Pela primeira vez na história da república um presidente recebe o movimento de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais no país. Lula, recebeu no dia 13/12/2006, às onze horas, no Palácio do Planalto, em Brasília, o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas Bissexuais, Travestis e Transexuais - ABGLT, Toni Reis, junto com mais outras 24 lideranças de organizações sociais brasileiras de estudantes, negros, trabalhadores, mulheres, índios, entre outros. Na audiência que contou com as presenças dos ministros do Trabalho, Luiz Marinho, e da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Dulci, o presidente Lula disse que o "adversário dos movimentos não está no Palácio do Planalto e que é obrigação destes não baixar a guarda na democracia, nos direitos humanos e no controle social". Para Toni Reis o fato do presidente da República receber a ABGLT significa "um fato histórico e uma vitória da luta contra o preconceito a que os GLBTs sempre foram submetidos no Brasil e que demonstrou a necessidade de continuarmos a luta pela implantação do programa Brasil sem Homofobia, pelo Estado Laico e uma política externa que garanta os direitos humanos por orientação sexual e identidades de gênero. Agora é hora dos fóruns estaduais da ABGLT procurar audiências com os novos governadores e iniciarmos uma nova etapa no movimento". Luiz Dulci, lembrou que a ABGLT foi incluída entre as 25 mais importantes organizações sociais do Brasil (entre elas: UNE, CUT, MST, Abong, Articulação de Mulheres,...) pelas suas 203 afiliadas e pelo seu efetivo trabalho na sociedade brasileira.
(por Léo Mendes, jornalista profissional e Secretário de Comunicação da ABGLT)