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Para mulheres que amam mulheres com leveza e beleza

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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2006, 15

15.06.06

*A história da mulher lésbica*

categorias: É bom saber

Contar a história das mulheres homossexuais é contar a história de algo que não existe. Não existe, em primeiro lugar, a história da mulher. Em nosso conjunto de valores, a mulher raramente faz parte da história. Logo, não há por que haver uma história das mulheres. Considerando agora o outro aspecto da questão: e no caso das mulheres homossexuais, o que diria a história? Menos ainda, já que, no sistema de valores de nossa sociedade, é pouco comum associar à mulher o exercício de sua sexualidade, homo ou hetero, sem associá-la à procriação. Segundo os antropólogos, o início de nossa civilização é marcado pela proibição do incesto. Os homens precisam de braços para o trabalho, mas não podem, então, procriar e produzir novos braços usando para isso as mulheres de sua família. Assim, precisam estabelecer com outros homens relações de troca, em que as mulheres de uns são comercializadas para procriarem com outros. É assim, portanto, o início de nossa sociedade patriarcal, em que a atividade sexual da mulher está submetida às necessidades masculinas. Da mesma forma, o próprio sexo anatômico da mulher só passou a ter existência há pouco tempo. Segundo Thomas Lacqueur, os manuais de anatomia ainda no século XVIII viam os genitais da mulher como uma versão "falhada" do sexo do homem. Haveria apenas um sexo, o masculino, e a mulher seria o avesso disso, com os mesmos órgãos sexuais masculinos não desenvolvidos, ou voltados para dentro. Por todas essas razões, não é de se estranhar que a história das mulheres que se relacionam sexualmente com outras mulheres seja algo praticamente inexistente.

Há, entretanto, algumas pistas que podemos seguir, considerando a história da mulher lésbica como dividida em momentos de alguma visibilidade, a saber:

Na Era Clássica
Os parcos documentos existentes sobre a Era Clássica dão conta da existência reconhecidamente histórica apenas da poetisa Safo, habitante da ilha de Lesbos, que se tornará uma espécie de pedra fundamental de nossa história, inclusive fornecendo alguns dos nomes dados ao amor entre mulheres: safismo, lesbianismo. Safo teria estabelecido, na ilha, uma academia de poesia para mulheres. Sua obra, entretanto, foi quase que totalmente destruída pelo Papa Gregório VII, no século XI, tendo chegado a nós uma parcela ínfima de sua produção. Além dela, teria vivido no século IV antes de Cristo a filósofa Filênis, que teria, inclusive, escrito textos acerca de sexo entre mulheres. Sobre ela há parcas referências. Por último, ainda em relação a esse período, há as narrativas - até onde se sabe lendárias - a respeito das Amazonas, uma tribo de mulheres guerreiras que somente se relacionariam com homens para a procriação, de modo a manter a existência da tribo.

Na Inquisição
Instrumento de repressão da Igreja Católica ao longo de muitos séculos, a Inquisição acabou legando documentos relacionados aos que passaram por suas garras. O caso mais conhecido desse período talvez seja o de Joana D'Arc, que foi queimada no século XV por vestir-se como homem, para poder lutar pela França à frente de uma tropa. Sabe-se que dormia sempre acompanhada de moças, como forma de defender sua virgindade. Ainda durante o período da Inquisição, ocorre no início do século XVII o caso das religiosas Benedetta e Bartolomea, a partir de pesquisas nos documentos inquisitoriais. Benedetta Carlini era abadessa de um convento próximo a Florença. Tinha visões místicas e eróticas e, por sofrer dores intensas e inexplicáveis, passou a ter como ajudante uma freira mais jovem, chamada Bartolomea Crivelli. Mais tarde, os inquéritos da igreja revelaram que as duas tiveram relações sexuais por muitos anos. Longe dos tribunais eclesiásticos mas próximo aos tronos, ainda no século XVII, na Suécia, ocorre a abdicação da Rainha Cristina, por não querer se casar. Registra-se que era sua companheira uma camareira chamada Ebba. No Brasil, já no início do século XIX, ficou registrada a amorosa correspondência entre a Imperatriz Leopoldina e a inglesa Maria Graham, depois de breve convivência que tiveram no Brasil.

No Final do Século XIX
O final do século XIX e o início do século XX foram marcados pelo surgimento de estudos de natureza psiquiátrica e de medicina legal. A ciência dedicava-se a estabelecer padrões de normalidade e a descrever, para tentar curar, tudo o que não se adequava a esses padrões. Alguns cientistas desse período dedicaram-se a investigar causas e possíveis terapêuticas para os chamados casos de "inversão". Alguns atribuíam causas fisiológicas para o homossexualismo. No Brasil, Francisco Viveiros de Castro, em 1894, considerava a homossexualidade um distúrbio que merecia tratamento médico. Um pouco mais tarde, será Freud, em seus estudos sobre a sexualidade feminina, a descrever causas do homossexualismo. Subjacente à visão de Freud está a concepção de superioridade masculina. Embora Freud sem dúvida represente um avanço em relação aos estudos fisiológicos de seus antecessores, fica evidente em seus estudos uma clara visão falocêntrica.

No Século XX
Ao longo do século XX, a história do lesbianismo parece sintonizar-se com a história do movimento feminista. É no contexto da primeira guerra, com a necessidade das mulheres ocuparem espaço no mercado de trabalho, em razão dos homens estarem no campo de batalha, que se dá a primeira onda mais visível do movimento feminista. Ao longo dos primeiros anos do pós-guerra, mais e mais mulheres destacam-se por sua atividade intelectual e por sua militância em prol dos direitos da mulher. Pode-se dizer que a face mais evidente desse momento é o movimento sufragista, que lutava pelo direito das mulheres ao voto. No que diz respeito ao lesbianismo, é nesse momento que surgem, na Europa, alguns grupos de mulheres que vão destacar-se através de sua atividade artística. Em Paris, há o grupo que se reúne na casa de Nathalie Barney, freqüentado por nomes como Gertrude Stein e Alice B. Toklas, Radclyffe Hall e Lady Una Troubridge, Djuna Barnes, Romaine Brooks, Colette, Sarah Bernhardt, Isadora Duncan, Greta Garbo e outras. Na Inglaterra, o grupo de Bloomsbury reúne em torno de Virginia Woolf figuras como E. M. Forster, J. M. Keynes, Vita Sackville-West, entre outras. A partir dos anos 30, há um certo recrudescimento do movimento feminista, que vai coincidir com uma certa invisibilidade lésbica. É só a partir do final da segunda guerra, novamente a partir da maior inserção das mulheres no mercado de trabalho, que o movimento feminista vai viver sua segunda onda de maior visibilidade e militância. Em 1949, Simone de Beauvoir publica "O segundo sexo", um marco na luta das mulheres. A partir de 1954, com a invenção da pílula anticoncepcional, as mulheres podem finalmente desvincular, com menos riscos, a atividade sexual da procriação. Com estes antecedentes, a década de 60 vai ser marcada pela intensificação das lutas feministas, pela liberação sexual e, pelo aumento da visibilidade lésbica. No bojo dos grupos feministas começam a aparecer os primeiros grupos de militantes lésbicas. Os anos 70 vão, entretanto, marcar o início do divórcio entre lésbicas e feministas. A partir daí, surgem grupos específicos voltados para a causa homossexual, às vezes reunindo homens e mulheres ou apenas lésbicas, sobretudo no final da década de 70 e início dos anos 80. O final do século será marcado por uma progressiva desqualificação do movimento feminista e uma intensificação dos movimentos organizados de gays e lésbicas, cuja face mais visível se expõe na afluência cada vez maior às Paradas do Orgulho Gay em muitos países.

(por Ana Maria Domingues de Oliveira - doutora do Departamento de Literatura da Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP)

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