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Cerca de 2,2 milhões de pessoas foram no dia 17 junho de 2006 à 10ª Parada do Orgulho GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), segundo dados da Polícia Militar. O número estabeleceu um novo recorde de público. A Parada deste ano se destacou pela presença mais de desconhecidos do que de famosos. Apesar do esforço dos organizadores em dar à 10º Parada do Orgulho GLBT um tom mais politizado - o tema deste ano foi “Homofobia é Crime – Direitos Sexuais São Direitos Humanos”, e fazer com que a parada, também, servisse de protesto contra crimes causados pela homofobia, afinal a cada três dias uma pessoa é morta no país por causa de sua orientação sexual, o evento deixou os discursos de lado para se tornar definitivamente a maior balada de São Paulo. Uma pena. Já que a maioria do povo brasileiro adora consumir e copiar tudo o que vem dos States, aliás, diga-se de passagem, só o que não presta, está na hora de começarmos a importar algo de valor. Como, por exemplo, a organização e o engajamento das paradas de lá, como bem observou e admirou o sociólogo Luiz Eduardo Soares na parada gay de New York do ano de 2004.
Em uma parada gay: a de New York
A 5ª Avenida estava coalhada de gente, desde a rua 52 até a Washington Square, nesse domingo ensolarado, 25 de junho. As pessoas se acotovelavam nas calçadas, buscando um ângulo melhor para ver e aplaudir o desfile que celebrava o dia do orgulho gay. The Parade, a parada, como é chamada em Nova York, prescinde de adjetivos para ser identificada porque já faz parte do calendário da cidade e tem lugar garantido na cultura cívica dos Estados Unidos. Dos prédios residenciais, as janelas espiavam o espetáculo político-carnavalesco, apinhadas de curiosos, alguns mais entusiastas que observadores. Durante várias horas, o desfile só era interrompido para a passagem do tráfego que cruzava a cidade no sentido leste-oeste e não poderia ser retido indefinidamente, sob pena de causar um transtorno mais espetacular do que a parada. A paciência de ambos os lados era surpreendente para um brasileiro: a marcha suspendia seu fluxo, obediente e resignada, para que os carros cruzassem a pista, retribuindo a tranquilidade com que esses aguardaram sua vez, acumulando-se nas ruas transversais. O ritmo entrecortado pela gramática do trânsito era já um bom exemplo de um importante preceito democrático: o cumprimento de regras legítimas e equânimes gera tolerância e propicia o convívio harmonioso das diferenças. Cada grupo de manifestantes - eu quase disse, cada bloco - trazia sua mensagem e expressava a adesão de um segmento da população à causa das minorias sexuais: desfilaram representantes de instituições de pesquisa, religiosas, filantrópicas, fundações, ONGs, hospitais e associações dos mais diversos tipos, desde aquelas que se dedicam à proteção dos jovens, das crianças, dos negros, dos latinos, dos asiáticos, dos judeus, dos idosos, dos migrantes, até as que se devotam à defesa dos desempregados e sem-teto. Havia grupos nacionais também: os peruanos, os irlandeses e os poloneses eram os mais numerosos e animados. Alguns grupos limitavam-se a celebrar sua identidade gay, ostentada com orgulho e referida a um processo de conquistas progressivas, desde os anos 60, indissociável da própria história dos direitos civis, no país de Harvey Milk e Marthin Luther King. Outros defendiam propostas específicas ou expunham a forma própria de engajamento em ações solidárias: contra a pena de morte; pelo reconhecimento legal do casamento entre homossexuais; pela igualdade de direitos, em todas as esferas da vida social; por mais investimentos em pesquisas sobre a AIDS; pelo apoio às populações mais pobres do terceiro mundo; pela proteção dos sem teto; pelo controle dos preços dos remédios contra a AIDS, nos países pobres da África.Tudo isso com muitas cores, música, dança e algumas cenas de nudez e exaltação erótica, típicas dos rituais que carnavalizam e invertem os comportamentos cotidianos. Havia também os grupos profissionais: professores, médicos, sacerdotes das mais diversas tradições, advogados e juízes, enfermeiros, escoteiros e militares, artistas, etc…"Hate is not a family value" ("Ódio não é um valor da família"), proclamavam alguns cartazes portados por religiosos que se contrapõem à ultraconservadora Christian Coalition (Coalizão Cristã), defendendo a expansão do conceito de família e o culto de alguns de seus valores, reinterpretados à luz do contexto cultural contemporâneo: a solidariedade, a fraternidade, a tolerância, o cuidado com o outro e o amor. As famílias também estavam presentes: casais homossexuais com seus filhos; pais que exibiam seu orgulho pelos filhos homossexuais; irmãos, primos, tios proclamando sua solidariedade.Grupos da terceira idade, repudiando o preconceito de que são vítimas (referido como "agism") e afirmando sua opção gay, traziam consigo o fio de uma história atormentada e vitoriosa, e eram recebidos com muitos aplausos. Havia um grupo profissional que teria tudo para manter-se distante daquele festival: os policiais. As calçadas vibravam quando passava o grupo dos policiais, organizados na GOAL (Gay Officers Action League). A confraternização era contagiante. Para evitar o risco de uma generalização equivocada, acompanhei os policiais ao longo de quase um km, observando a receptividade. A saudação entusiástica era constante e homogênea. As bandeiras multicoloridas, ícones da comunidade gay, eram erguidas mais alto; os gritos e acenos sublinhavam o encontro ainda improvável, há alguns anos inconcebível. Os homens e mulheres do famoso, eficiente e circunspecto Departamento de Polícia de New York desfilavam uniformizados ao som de sua banda, acenando com a mesma alegria com que eram acolhidos pelo público. Difícil não se emocionar com aquele espetáculo, quando se tem em mente seu significado e a história que simboliza.
(trecho do artigo “Polícia, Homofobia e Democracia” de Luiz Eduardo Soares, sociólogo, especialista em segurança pública, ex-coordenador de Segurança do Rio de Janeiro, é Visiting Scholar de Columbia University, pesquisador do Vera Institute of Justice de Nova York e autor de “Meu casaco de general”)