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"Sábado, dez da noite. Todo mundo que você combinou de sair acabou assumindo outros compromissos e sumindo, te deixando no vácuo. Você pega sua agenda e vai ligando para todas as amigas cujo número ainda não mudou ou que não mudou de cidade ou país (teve amiga até que casou com homem e você não sabia).
- Oi fulana! Tudo bem? Como estão as coisas? Namorando muito? Hã? Você casou? Com aquela última namorada? Não? Com homem? Ah, desculpe, não sabia. Está o que? Grávida? Nossa, parabéns!
Descuidadamente você tropeça no fio do telefone e derruba a ligação, literalmente. A conversa ficou constrangedora demais para continuá-la. Prossegue até que não sobre absolutamente ninguém para quem ligar. Neste momento você toma duas decisões: nunca mais deixará se passar tanto tempo para ligar para as antigas amigas e irá fazer novas amizades. Imediatamente. Já que sua carona furou, não te resta outra alternativa senão a internet, este maravilhoso veículo de comunicação que quebrou fronteiras e aproximou pessoas de todo o mundo. Você escolhe a sala de bate-papo que está mais cheia e mergulha de cabeça no mundo virtual. De repente, um apelido te chama a atenção. Você a cumprimenta timidamente:
- Boa noite, atrapalho?
- Não, estou só observando.
Quando percebe, já se passaram quatro horas desde o momento que começaram a se falar. Quanta afinidade! Você joga pôquer, ela basquete. Você é carnívora, ela vegetariana. Você a-d-o-r-a pagode, ela é violinista clássica. Mas quando o assunto é cinema, vocês são praticamente almas gêmeas. Falam de todos os filmes que viram, que gostaram, que detestaram. Criticam atores, trilhas sonoras e até as poltronas dos cinemas da cidade. Só pode ser: ela é a mulher da sua vida! Mais três ou quatro dias conversando pelo telefone e vocês decidem se encontrar pessoalmente. Marcam em um restaurante bacana e lá se vêem pela primeira vez. Ela é muito diferente da foto, mas tudo bem, te atraiu mesmo assim. Pessoalmente tudo flui bem. Ela é educada (bom, pelo menos não come com as mãos), simpática e agradável. A conversa decorre deliciosamente, a ponto de serem as últimas clientes do restaurante. Depois dali, a prova final: sexo. Nada muito excepcional ou extravagante. Aliás, prá ser honesta, foi bem morno e sem tempero, mas você não pode perder a chance de estar com a sua prometida. Só pode ser, é afinidade demais para ser verdade. Uma semana depois e vocês já estão brigando horrores. Você quer "assar uma carninha" e "levar um pagodinho" com as amigas e ela quer ver a filarmônica de Berlim no Teatro Municipal. As brigas vão do que fazer no final de semana ao que não fazer durante a semana. Com o coração apertado, você finalmente se dá conta que pode ser que ela não seja tão perfeita assim. O filminho da sua primeira conversa com ela vai passando devagarinho na sua memória: tudo o que vocês tinham de afinidade era o cinema e você não tinha percebido antes! Você termina o namoro e evita internet por quase um mês, parte por medo de reencontrá-la nas salas e parte por trauma pós namoro-relâmpago. Mas basta uma carência para a história começar de novo: internet, encontro, namoro, briga, término de namoro. Nenhuma delas com um final feliz. Não estou descartando a possibilidade de se encontrar alguém realmente especial pela rede aliás, eu nem poderia pois já namorei (e até casei) com mulheres que conheci aqui, mas questiono a intensidade com a qual nos doamos e pistas que nos apontam a incompatibilidade da relação que deixamos escapar, por carência ou necessidade de ter alguém do nosso lado. A próxima vez que decidir encontrar sua princesa encantada escondida nos bits e bytes da rede mundial, preste atenção em todos os detalhes. Pode ser que aquela mulher seja maravilhosa, mas apenas para ser sua amiga. Resguarde-se, poupe-se, não se exponha ou se entregue com tanta facilidade. Não tenha pressa de conhecê-la bem antes de se envolver ou namorar. Aproveite todas as oportunidades que só a tecnologia pode trazer, mas não se esqueça nunca do coração que bate no seu e no peito daquele apelido lindo que acabou de entrar na sala. É o que eu chamo de responsabilidade interpessoal. Poupar-se e poupar ao outro, sempre. "
(por Nina Lopes, jornalista e editora do site "Sobre Elas")