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Eu tenho lesbianismo e pode ser contagioso
"Acho muitíssimo interessante analisar o comportamento das pessoas quando sabem, efetivamente, que sou homossexual. Assumi para a minha família aos dezesseis anos e fui, pouco a pouco, assumindo para os amigos e no trabalho até que todos os que conviviam comigo soubessem da minha orientação. Não sei se por falta de tato ou experiência, cada qual reage de uma maneira e, muitas vezes, acabam "dando uma mancada" de vez em quando. Um tio, quando soube, passou a me cumprimentar com tapas nas costas (que me jogavam longe, dado a delicadeza do meu corpo magérrimo) e apertos de mão de quebrar os ossos. Só faltou passar a me perguntar quantas "minas" eu estava "pegando", como se eu tivesse me transformado em homem, de uma hora para outra. Muitas mães de amigas as proibiram de continuar se relacionando comigo, como se lesbiandade fosse contagioso. Aliás, sempre que me lembro de episódios como estes, fico imaginando o que passa pela cabeça de uma pessoa dessas. Creio que elas fantasiam que nós, homossexuais, temos um poder extra-sensorial de transmissão de microondas gays que transformam a todos os que estão ao nosso redor com um simples olhar. Confesso que adoraria ter este poder algumas vezes. Uma amiga respondeu veementemente quando eu disse que uma colega dela era gay:
- Não é não, ela é normal!
Percebendo a inocência da resposta, a questionei intrigada:
- Você acha que eu sou anormal?
Depois de muitas risadas, percebemos que a reação dela foi espontânea e nada teve a ver com preconceito, foi apenas uma péssima escolha de palavras, fruto do condicionamento imposto pela sociedade e que acaba nos tornando automáticos diante de muitas situações. Para minha felicidade, a maioria recebeu a notícia com naturalidade ou pelo menos teve sutileza de não esboçar surpresa ou repulsa na minha frente. Creio que minha postura contribuiu imensamente para este resultado positivo. Nunca me impus ou fui agressiva com relação a minha sexualidade. Sempre deixei claro que este era apenas mais um aspecto da minha vida e não a totalidade da minha existência. Sou irmã, filha, sobrinha, profissional, amiga e cidadã acima e antes de qualquer coisa. Minha integridade nada tem a ver com a minha orientação sexual. Ser homossexual não me faz melhor ou pior que ninguém. Me faz única, exatamente como eu seria se fosse heterossexual. Não importa se você vai assumir sua orientação para si ou para a sociedade, o importante é sentir-se segura e livre para exercer sua sexualidade, sem medo de ser feliz. Quando alguém disser que você é anormal, aponte os olhos para ela e lance um "raio gay" fulminante, quem sabe um dia funciona?"
(por Nina Lopes – editora da revista “Sobre Elas”)