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Djuna e Thelma, quase dez anos juntas
"Djuna Barnes é uma das mais renomadas e, ao mesmo tempo, desconhecida autora da literatura modernista americana do século XX, como ela mesma costumava dizer-se "a mais famosa desconhecida do século". Djuna nasceu no dia 12 de junho de 1892 nos arredores de Nova York. Sua família não era nada convencional. A avó, Zadel, era jornalista e feminista. O pai, Wald, era adepto da liberdade sexual e mantinha duas famílias - a da esposa e a da amante - sob o mesmo teto. Nem Djuna nem seus irmãos freqüentaram a escola pois Wald, um egoísta megalomaníaco que queria impor suas idéias a todos ao seu redor, era contra o sistema educacional. Quando a filha Djuna fez 16 anos, Wald resolveu que ela já estava pronta para iniciar-se sexualmente e chamou um vizinho para desvirginar a filha. Djuna nunca mais se recuperou do trauma e jamais superou o ódio que desde então alimentou pelo pai por aquela agressão nem os irmãos, pelas constantes tentativas de abusarem sexualmente dela. Quando o pai abandonou a família, Djuna foi para Nova York trabalhar como jornalista para sustentar a mãe e os irmãos. Em pouco tempo tornou-se uma das mulheres mais bem pagas do meio, graças aos seus comentários sarcásticos, suas ilustrações originais e suas matérias inusitadas. Djuna uma vez "entrevistou" uma gorila num zoológico, algo originalíssimo na época e, em outra matéria, experimentou o drama das sufragistas inglesas que, em greve de fome, foram alimentadas à força: ela mesma se submeteu ao tratamento. Depois da primeira guerra, Djuna - assim como vários americanos da sua geração - foi tentar a vida em Paris. Chegou à cidade como correspondente cultural do Theater Guild mas já era reconhecida por seu talento literário. Foi em Paris que Djuna viveu o grande amor da sua vida, com a escultora Thelma Wood. Bissexual, Djuna já havia tido casos antes, com homens e mulheres, mas a paixão por Thelma foi arrebatadora. Thelma Wood dizia ter sangue de índio sioux nas veias e com isso queria explicar sua natureza selvagem. Como muitos artistas americanos de sua geração, Thelma também foi tentar a sorte em Paris depois da Primeira Guerra. Fugindo da Lei Seca e do provincianismo americano, buscava um custo de vida barato e a cultura efervescente de Paris. Thelma dedicou-se à escultura até conhecer Djuna Barnes, que a convenceu a tentar desenhos a bico-de-pena. Elas haviam se encontrado em Berlim, se apaixonaram e, de volta a Paris, foram viver num pequeno apartamento na Rive Gauche. Mas a natureza primitiva e irrequieta de Thelma não combinava com uma vida caseira. Para piorar, Thelma era alcoólatra, nunca conseguiu levar sua carreira à sério e era mais conhecida na cidade por seu sex-appeal e sua beleza selvagem do que pelo seu trabalho.Thelma bebia demais e saía à noite pelos bares e nightclubs enquanto Djuna esperava em casa. Quando, Djuna, angustiada e impaciente, procurava Thelma pelas ruas, encontrava a namorada, bêbada e jogada pelas sarjetas. Depois de quase dez anos de idílio amoroso, a relação começou a se deteriorar graças ao ciúme de Djuna, à infidelidade e ao hobby noturno de Thelma. Com o rompimento definitivo, depois da última traição de Thelma, Djuna escreveu sua obra-prima “Nightwood” (No Bosque da Noite). Quando o livro foi publicado Thelma odiou e Djuna, sentiu-se vingada. Depois de Thelma e Paris, o mundo parecia ter acabado para Djuna. Beirando os 50 anos, Djuna foi encontrada pela amiga Peggy Guggenheim em uma clínica de desintoxicação na Inglaterra. Peggy decidiu mandar a amiga de volta a Nova Iorque. Por quarenta anos, Djuna permaneceu isolada em seu apartamento, sem receber visitas. Pobre vivia de uma mesada de suas amigas ricas Peggy e Natalie Barney. Morreu aos noventa anos, em 1982. Depois de sua morte a sua obra - não muito numerosa, com uma característica marcada pelo humor negro e ironia e considerada obscena, por insistir em temas como lesbianismo, bestialismo e incesto - foi quase toda reeditada."
(Fonte: Revista Digital MixBrasil)
I
bateram duas vezes à porta e minha disposição em abri-la é tão miúda quanto a certeza de que sobreviverei a mais um processo de desconstrução. não quero coadjuvantes. minha dor é egoísta. solitária. aguda.
e de dor eu entendo como ninguém.
II
sou mulher de prantos. choro por tudo e nada. e o nada tem sido bem mais que tudo. choro manso pra despistar os demônios. choro baixo pra enganar meus fantasmas. ninguém desconfia de nada. e o mundo segue - presumivelmente - feliz.
sem mim.
III
sinto faltas essenciais: de algum amor, de alguma paixão, de algum sexo. e de tempestades. o que antes era profuso agora é reto. e esta linearidade me apavora. não estou preparada para viver em calma perpétua. quase morta.
ainda não.
IV
passei metade da vida levantando bandeiras e tentando compreender meus abismos. passei a vida inteira carpindo a dor alheia e perdendo meus sonhos em qualquer lugar. logo eu, que nunca soube advogar em causa própria, apostei todas as fichas no mesmo jogo.
e perdi.
V
confesso que fui muitas sem ser nenhuma. confesso que me apaixonei demais e amei de menos. confesso que não me lembro de alguns cheiros. de algumas carícias. e do meu primeiro beijo. se, hoje, vomito lembranças é pra justificar esta minha condição.
de puta.
VI
entre meus dedos, o terço - presença física de minhas crenças - queima. ando esquecida dos mandamentos. e já não sei onde foi parar meu último pecado. aquele do qual nunca me arrependi. a imagem da Virgem me enxerga, entende e consola.
ah!, Senhora, estou nua. tem piedade de mim.
VII
foi por minha conta e calculado risco que me meti em claustro (mais uma vez) e calei a boca (mais uma vez). batem novamente à porta. (estou assustada). do lado de lá esperam pela mulher de sempre. pelo riso fácil. pela boca pródiga em contar histórias. do lado de lá esperam por respostas que não tenho.
nem pra mim.
(texto de Mariza Lourenço - escritora, advogada criminalista e consultora conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher da cidade de Valinhos-SP)
"Determinadas profissões ainda carregam em sua base o preconceito. Ainda se sustentam em um universo machista. São carreiras onde a orientação sexual diferente representa desprestígio e até uma ameaça para o sucesso profissional. Profissionais são obrigados a viver à sombra de uma identidade falsa. A sociedade ainda não consegue aceitar um jogador de futebol gay, muito menos um militar e até um executivo. Na cabeça das pessoas, a sexualidade diferente diminui esses profissionais em seu talento. O machismo que reveste essas profissões determina isso. Para viver a diferença esses profissionais assumem sua sexualidade longe dos olhos de todos, mas vivem intensamente. Os romances nos bastidores dos quartéis das forças armadas se multiplicam, além do sexo fácil. É também assim e com total discrição no mundo do futebol onde um banho junto no vestiário pode se transformar numa aventura calorosa. Nesse território a bissexualidade sempre está em alta ou por existir mesmo ou para encobrir a homossexualidade. Os executivos só folgam o nó da gravata com total segurança e fazem sexo intensamente nos bastidores do mundo dos negócios, inclusive muito sexo pago com garotos de programa. Eles vivem entre dois mundos: o do poder e prestígio onde encarnam uma identidade heterossexual e o mundo dos seus próprios desejos onde se mostram como realmente são. Em todas essas áreas de atuação já foi bem pior para as pessoas de orientação sexual diferente. Ainda deve demorar a queda desse muro que separa a sexualidade diferente desse universo das fardas, da bola, das gravatas."
(texto da redação do site “Toda Forma de Amor”)
Título original: “Fire”
Gênero: drama
Origem: Canadá/Índia
Direção: Deepa Mehta
Com: Karishma Jhalani, Shabana Azmi, Nandita Das
Em “Fogo e Desejo”, a diretora Deepa Mehta coloca na berlinda os casamentos arranjados, muito comuns entre os indianos e a insatisfação sexual, numa paisagem cultural em mudança da Índia moderna. As personagens são duas mulheres indianas, Sita e Radha, que foram vítimas de um acordo entre duas famílias, se casaram com homens de uma mesma família e vivem um casamento frio. Elas querem desesperadamente obedecer as tradições profundamente enraizadas, mas sentem-se divididas pelas suas necessidades e paixões. Radha não pode ter filhos e seu marido se esquiva de qualquer tipo de contato dizendo que sexo sem fins reprodutivos é pecado. Do outro lado, Sita descobre que seu marido tem uma amante. As mulheres, privadas da atenção dos maridos e extremamente infelizes, escapam dos seus casamentos arranjados e opressivos através do amor uma pela outra, e acabam descobrindo que podem ter amor, carinho e compreensão, sem precisar de um homem. É um belíssimo e poderoso filme que discute desejo e preconceito. O filme gerou várias manifestações de revolta na Índia por tratar de lesbianismo de maneira tão aberta.