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"Analisados os conceitos, pela minha aparência, pela forma como sempre gostei de me vestir, penso que sou “femme”, mas sou-o porque gosto de me arranjar, gosto de gostar da imagem que o espelho me devolve, porque estou habituada a esta imagem e porque, mesmo de sapatilhas e calças de ganga gosto de ter um ar feminino...faço-o primeiro para me agradar a mim, depois obviamente para agradar à ela, porque acredito que uma relação amorosa sólida é necessariamente uma conquista diária e, não vou negá-lo, gosto de me sentir o objecto de desejo daquele olhar libidinoso. Admito a cataloguização feita nestes termos, mas rejeito qualquer consequência comportamental que dela se retire. Não me identifico minimamente com o termo “femme” se de comportamentos sexuais estivermos a falar…nem sequer com o de “butch”…ou talvez me identifique com ambos…não sei…sei que a sexualidade é o ponto máximo da nossa liberdade, onde não existe lugar para catálogos, imposições culturais, ideias feitas ou “modelos femininos ou masculinos”… sexualmente sei que sou lésbica e que sou uma mulher realizada…criativa…e sem tabus… umas vezes “femme”, outras “butch”, outras vezes ambas…conforme os dias e os apetites! E é porque é assim, que me custa tanto compreender esta distinção. E é porque é assim que não vos sei dizer se gosto mais de mulheres “butch” ou “femme”. Gosto de mulheres-mulheres ponto final. Gosto de mulheres que transbordem feminilidade. E feminilidade aqui nada tem a ver com saltos altos ou camisas de homem: há mulheres de cabelos longuíssimos, vestidas de saia e salto alto, lindíssimas até, que, por tanto se submeterem ao jugo masculino, deixaram que a sua sensualidade feminina desse lugar a um comportamento de tal forma submisso que perderam o encanto; enquanto há mulheres de cabelo curto, calças de ganga e camisa de homem, que por toda a sua forma de ser e estar esbanjam essa feminilidade que tanto me atrai. Rejeito totalmente que, porque somos lésbicas, nos tenhamos que adaptar a um “modelo” lésbico, um híbrido entre os modelos feminino e masculino que a sociedade heterossexual cultiva. Compreendo que haja pessoas que se sintam mais à vontade com um determinado estilo de roupa. Não tenho nada contra…Mas isso é uma questão de estilos e modas…nada tem a ver com o facto de sermos lésbicas ou não…Descubro agora, pouco a pouco, a cultura lésbica e estou a gostar do que descubro, mas sinceramente, não acredito que ela passe por uma determinação de estilos e aparências. Ao fim e ao cabo, e estou certa de que, quanto a isso, todas concordarão comigo, quando se fecham os olhos e se sentem uns lábios doces, uma língua fresca, uma pele macia…as mãos que a cingirem-nos as ancas…as costas…os braços…e a fazerem despertar, por onde passam, sensações sempre renovadas…O que vestimos ou o que calçamos não tem importância nenhuma."
(O texto foi escrito pela criadora do blog “Assumidamente”.
Não estranhem o modo da escrita, a autora é portuguesa)