Lara & Mara*

Para mulheres que amam mulheres com leveza e beleza

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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2006, 08

08.08.06

*Vinhos nas cores do arco-íris*

categorias: É bom saber

"Existem vinhos para gays?", me perguntaram. Acho que a pergunta pode ser respondida em dois tempos. Sim, existem. A Rainbow Ridge Winery, na Califórnia, é talvez a primeira vinícola do mundo a classificar-se como "uma companhia gay". Logo, o vinho que produz seria eminentemente para gays? Sua logomarca é um cacho de uvas nas cores do arco-íris. E o arco-íris (rainbow, também nome da empresa) é o símbolo oficial do movimento gay, pelo menos na Califórnia. Seus fundadores, Dennis Costa e Tom Beatty, sócios no negócio e na vida, mal lançaram o seu primeiro vinho, o “Alicante Bouschet” e já ganharam prêmios em concursos e conseguiram excelente pontuação na prestigiosa revista "The Wine Enthusiast": 91 pontos numa escala de 100. Coisa séria. Só que o vinho que fazem, como o tinto varietal Alicante Bouschet, é para heteros, homos, lésbicas e desinteressados, uma categoria que cresce assustadoramente. É um vinho de grande qualidade, feito a partir de uma uva, que lhe dá o nome, considerada rústica e muito pouco utilizada. Dennis e Tom conseguiram lançar uma novidade - e com qualidade e bom preço. A Rainbow Ridge contribui para o Centro de Gays e Lésbicas de Nevada e para um projeto de combate a AIDS em Los Angeles. Seus donos são gays, a empresa é gay, o slogan de sua publicidade é "Come Home To Family" (Venha para a Família), para a comunidade gay, portanto. Apenas isso. O vinho é para todo o mundo. Mas fomos encontrar em Roma o que está sendo considerado o primeiro vinho na história dedicado aos gays. O editor italiano Roberto Massari manda produzir vinhos especiais para uma série que intitulou de "Vini da Leggere" (Vinhos para Ler). Isso mesmo, os livros são os rótulos e contra-rótulos dos seus vinhos. Um livro de duas páginas. A série, que já conta com onze "vinhos literários", entre eles um rosé dedicado à revolucionária marxista e feminista Rosa Luxemburg. É o Rosé Luxemburg, um Montepulciano d´Abruzzo 2001. E um branco também da região de Abruzzo, o Barricadero Blanco, em homenagem a Che Guevara. Massari decidiu ano passado lançar um livro, na Itália seus vinhos são legalmente considerados livros, em homenagem ao primeiro ativista gay da história, o advogado e escritor alemão Karl Heinrich Ulrichs (1825-1895). Karl publicamente assumiu sua condição de homossexual e precisava ser muito macho para fazer isso naquela época e naquele país, reduto de prussianos com aquele jeito meinkampf de ser. E publicou livros defendendo direitos de gays, lésbicas e das mulheres, que não tinham também quaisquer direitos. Como advogado Karl amparou homossexuais acusados de "má conduta pública", essas coisas. O alemão agitou tanto que acabou preso e depois perseguido em seu país. Buscou refúgio na Itália, onde morreu na cidade de L´Aquila, na região de Abruzzo. Massari deu ao vinho-livro o nome de Rosso Gayardo (Tinto Gayardo), um vinho denso e forte, com 13,5% de álcool, feito com uvas Nebbiolo, da região do Piemonte. É um senhor vinho, uma homenagem a qualquer amante da bebida de bom gosto, não importando sua orientação sexual. O nome resulta de um jogo de palavras. Em Roma, quando você quer dizer que alguém é forte, valente e que não tem medo de nada, você diz "gagliardo". Com o sotaque romano, "gagliardo" soa como "Gayardo". Vale o jogo de palavras e a ironia envolvida. Massari só encomendou 300 garrafas desse vinho, mas pretende aumentar a produção. Não, não existem. Como vê a pessoa que me fez a pergunta, não existe propriamente um vinho, a bebida, feita para um grupo específico do gênero humano. E vinhos para quaisquer etnias, credos e orientações sexuais. E se existissem essas marcas? É um assunto para os doutores em marketing, mas pessoalmente acho que esses vinhos teriam muitas dificuldades em ter sucesso comercial. No Brasil, estima-se que gays e lésbicas somem 10% da população. Nos Estados Unidos, somam cerca de 19 milhões de pessoas com um poder de compra de 800 bilhões de dólares. A maioria dos consumidores gays norte-americanos, por exemplo, tem pouquíssimos ou nenhum dependente e uma renda pessoal alta por quase toda a sua vida. Como resultado de poucos comprometimentos familiares, essa comunidade tem mais tempo para socializar e mais dinheiro para gastar. 85% dos gays e lésbicas adultos afirmam que precisam achar maneiras de reduzir o stress. Entre heterossexuais adultos esse índice é de 78%. São, assim, alvo prioritário para fabricantes de bebidas e mensagens que destaquem prazer e tranqülidade associados a beber socialmente. No primeiro mundo, 62% dos gays e lésbicas possuem um computador e 52% deles assinam serviços online. 65% dos que usam a Internet, navegam mais de uma vez por dia. E 71% compram produtos ou serviços pela rede. Lá, 39% dos gays freqüentam regularmente concertos de música clássica, cinco vezes mais do que a população em geral (8%). É uma comunidade que vai ao cinema duas vezes mais do que o restante da população. Gays e lésbicas respondem fortemente a marcas e a campanhas de publicidade que refletem seu estilo de vida e valores. Mas reagem negativamente a representações estereotipadas. E talvez aqui, esteja o xis do problema. Um vinho feito em homenagem a um ativista gay, o primeiro da história; um vinho feito por uma companhia declaradamente gay, a primeira do mundo – tudo bem, são maneiras de bom gosto de acessar a comunidade. Até porque ela é informada o bastante para, em primeiro lugar, experimentar os vinhos. Se forem bons, mesmo, ficará freguesa. Mas vai virar o rosto para caçoadas, piadinhas de mau gosto: por exemplo, um vinho rosé com a cesta da Carmem Miranda no rótulo. O rosé, normalmente um ótimo vinho, teria de ser soberbo para ser consumido.

(texto de Sonia Melier - colunista do site bolsa de mulher.com)

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  • Postado em 03:34:18