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"Cento e cinco anos antes dos enfrentamentos de Stonewall, em 1862, Karl Heinrich Ulrich's, considerado o primeiro militante gay, revelou sua orientação sexual aos familiares. A recepção foi amistosa, fato raro de acontecer, mesmo no século XXI. A partir de então, precisou usar um codinome – “Numa Numantius” - para proteger os parentes de constrangimentos. Somente seis anos após, em 1868, ao se assumir publicamente e pagar caro preço pela coragem e coerência, passou a usar o nome de batismo. Nascido em 28 de agosto de 1825 em Aurich, Alemanha, estudou Teologia e Direito na Universidade de Göttingen. Trabalhando na Corte de Hildesheim, no então Reino de Hannover, tornou-se famoso ativista político e inspirado orador. Afastado do serviço público por ser gay, viajou pela Europa e se associou a uma sociedade literária de onde foi igualmente expulso por causa do teor pioneiro de seus trabalhos. Criou o termo "uranismo", para significar homossexualidade e foi o primeiro advogado a defender um cliente acusado de delito sexual. Como jornalista escreveu os dois primeiros livros sobre a causa gay na História Moderna: "Vindex" (Defensor) e "Inclusa" (Inclusive). Suas obras foram retiradas de circulação pela polícia de Berlim. Preso por razões políticas, teve seus livros confiscados e cumpriu pena de seis meses de prisão em Münden. Assim que foi solto, fixou residência em Nápoles, onde publicou um jornal em Latim "Alaudae" e continuou a carreira de escritor, num total de doze livros publicados. Karl Heinrich Ulrichs foi a primeira pessoa na História Moderna a encorajar os gays a assumir publicamente sua orientação, a pedir direitos iguais para as mulheres, a sugerir que as famílias aceitem e compreendam seus filhos homossexuais, a exigir que a Igreja deixasse de ser homofóbica. Escolheu o dia em que suas obras foram liberadas, 26 de maio de 1864, como marco inicial do movimento gay. Morreu em 14 de julho de 1895 em L'Aquila, Itália. O termo “terceiro sexo”, que já teve relativa popularidade, está associado tanto a Ulrichs quanto ao seu sucessor Magnus Hirschfeld (1868-1935), outro importante representante do movimento homossexual. Ambos usaram a expressão em seus textos, acreditando que a origem estava em Platão (428-348 a.C.). Em Simpósio, o filósofo grego afirmava que houve uma época em que a humanidade era formada por três sexos em lugar de dois. Seus representantes eram agrupados em pares: dois homens, duas mulheres e um homem e uma mulher. Pares misturados buscariam o “pareamento” e poderiam se tornar adúlteros, pares sexuais iguais seriam mais capacitados para enfrentar a vida mortal. Nos dias atuais, um psiquiatra brasileiro, Dr Ronaldo Pamplona da Costa, ampliou mais ainda este conceito no livro ”Os onze sexos, as múltiplas faces da sexualidade humana” classificando assim as manifestacõe da sexualidade: homens e mulheres simplesmente, heterossexuais masculinos, heterossexuais femininos, bissexuais masculinos, bissexuais femininos, travestis masculinos, travestis femininos, transexual de homem para mulher, transexual de mulher para homem e o intersexo (hemafroditas)."
(por Thereza Pires, jornalista e colunista do site MixBrasil)