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"A violência doméstica entre casais é qualquer agressão física, sexual e/ou psicológica em que um dos parceiros tenta estabelecer e manter controle e poder sobre o outro. Existe sim violência doméstica entre lésbicas. Muitas desconhecem que em uma relação dessa natureza possa existir esse lado negro da subjugação, da anulação do próprio ser humano, da intimidação, da dor e do silêncio. O raciocínio simples é de que quem ama, seja um casal hetero ou homossexual, não se agride. Não deveria haver espaço para agressões no amor. A violência doméstica entre casais gays só começou a ser estudada na década de 90, no caso dos heterossexuais ela é pesquisada desde 1970, e ainda há muita resistência em se falar deste assunto. Atualmente, a questão tende a sair da esfera do desconhecido, ao se desfazer dois mitos: o estereótipo de socialização da mulher, naturalmente, elas são não-violentas, e a visão idílica das relações lesbianas, seriam relações entre iguais, fora de toda forma de poder. O mito existe e seu objetivo é silenciar aquilo que a violência nas relações lesbianas desmascara. Acreditava-se que as lésbicas estavam imunes. Afinal, não estão. Dou voltas e voltas a tentar descortinar um motivo, um único motivo que possa justificar a agressão física e a agressão psicológica. Não há, absolutamente, qualquer razão para que se tenha um comportamento violento com quem amamos. Ou então, não amamos. Não quero com isto dizer que pensava que só os homens são violentos e que a relação lésbica estava imune por nela não haver homens. Nada disso. Minha convicção era que um amor sublime, como é o amor entre duas mulheres, estava imune. Também não consigo perceber o que leva um homem ou uma mulher a baterem no marido ou na mulher. Não digo que o amor entre casais hétero seja menos verdadeiro do que existente entre duas mulheres. O fato é que a violência entre os casais heterossexuais é, infelizmente, mais familiar. Os agressores sempre justificam a violência como conseqüência de um ato da parceira. “Ela me fez fazer isto”. “Ela provocou”. “Ela procurou por isto”. Algumas vezes, as próprias vítimas acreditam nisso. As lésbicas também são vítimas de ataques de ciúmes doentios, de problemas psicológicos graves, de demonstrações de poder dolorosas e de manipulações psicológicas. A violência de um ponto de vista feminista é definida como a tradução do controle e do poder exercido sobre alguém. Esta definição, como todas as que se referem às correntes feministas – está ligada à dominação masculina. Quando tomamos consciência da forma como é definida a violência nas relações lesbianas, encontramos pontos comuns entre elas, mas também algumas diferenças: “Uma lésbica sofre violência quando começa a temer sua companheira, quando modifica seu comportamento por causa de abusos sofridos ou do medo de abusos futuros, quando desenvolve uma consciência particular ou adota tipos de comportamento destinados a evitar a violência e isto contra seus próprios desejos e preferências. O poder e o controle podem se estabelecer sem agressão física, por meio de agressões psicológicas ou verbais. Desta forma, assim como nas relações heterossexuais, trata-se do poder e controle que uma exerce sobre a outra. Assim, pelo poder e controle que exercem, tentam satisfazer suas necessidades pessoais sem nenhuma referência às necessidades e desejos da outra”.
Um manual sobre o tema violência doméstica lançado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) fez lembrar que entre casais de homossexuais, lésbicas, travestis e transexuais também podem ocorrer ameaças, humilhações, tapas e até mortes — nada diferente do que ocorre entre alguns casais heterossexuais. A diferença, quando ela existe, é que nos casais heterossexuais é o homem que costuma bater; nos outros, geralmente, é o mais fraco que apanha. Números não oficiais divulgados estimam que mais de uma centena de gays, lésbicas e travestis são assassinados por ano, no Brasil. Segundo Luiz Mott, professor da Universidade Federal da Bahia e fiador desses números, entre cinco e dez desses casos seriam de amantes que mataram parceiros. Se, por ventura, você tem uma relação sufocante com sua parceira que não está fazendo bem a você, nem a ela, é preciso conversar. Não destrua uma relação com agressões, sejam físicas ou psicológicas, elas podem causar feridas e mágoas desnecessárias. Não deixe a situação chegar a este ponto. Se não conseguir chegar a uma conclusão, procure ajuda. Não manche sua história de amor.
(por Kátia Horpaczky - Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta Sexual de Família e Casal)