Lara & Mara*

Para mulheres que amam mulheres com leveza e beleza

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Para mulheres que amam mulheres com leveza e beleza
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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2006, 17

17.08.06

*O que é coming out?*

categorias: O que é?

Muitos homossexuais falam em assumir a sua sexualidade ou de "sair do armário". São expressões usadas para descrever a compreensão e aceitação que uma lésbica ou um gay faz da sua própria homossexualidade e o ousar contactar outros. Mas "assumir-se" também quer dizer falar sobre os nossos sentimentos com as pessoas mais próximas de nós e de quem mais gostamos. A experiência de "sair do armário" varia muito de pessoa para pessoa. Algumas pessoas dizem que aconteceu muito depressa e que se sentiram como se de repente todas as peças do puzzle tivessem encaixado perfeitamente. Para outros é um processo longo e difícil, que dura alguns anos ou até mesmo décadas. Frequentemente estas pessoas aperceberam-se do que significavam os seus sentimentos muito antes de finalmente os terem aceito e assumido totalmente. Sem dúvida, as circunstâncias em que vivemos ditam o quão difícil é para nós assumirmo-nos. Talvez seja a idade, o local em que se vive, o ambiente familiar ou de trabalho.Também depende da nossa personalidade. Algumas pessoas estão prontas a seguir o seu próprio caminho e não têm medo do que os outros possam pensar. Muitos gays e lésbicas acham que as pessoas à sua volta irão evitá-los se souberem que são homossexuais. Às vezes há reações negativas, mas a experiência mostra que geralmente acontece justamente o oposto. Pais, familiares, colegas e amigos não só te aceitam, como também apreciam a tua honestidade e coragem e o fato de você tomar uma posição de afirmação em relação ao que você é.

(Fonte: Site Rede Ex-aequo de Portugal)

  • criado por  Mara* criado por Mara*
  • Postado em 10:25:45

O coming out de Sofia

categorias: O que é?

"Contar uma história de "coming out" não é algo simples porque não é fácil resumir em algumas linhas um processo que demora anos, e que, em algumas pessoas, suponho, nunca se completa na sua totalidade. Antes do "coming out" vem o “coming in”, que tem a ver com a aceitação pessoal de você mesma como homossexual. Recordo os tempos em que era para mim imensamente difícil dizer a palavra “lésbica”, quanto mais – Eu sou lésbica! Antes de dizer alto para os outros – Sou homossexual. É preciso dizer a você mesma vezes e vezes sem conta, esta é a regra. Suponho que existem pessoas com uma grande liberdade interior e que aceitam a sua natureza com tanta espontaneidade que incluso deixam as outras pessoas desarmadas nos seus preconceitos. Bem, eu não sou uma dessas pessoas e para mim este foi um processo penoso e prolongado. A primeira vez que aconteceu alguma coisa com outra garota eu tinha 17 anos. Estava apaixonada pela minha melhor amiga (típico!!!) e vivia esse sentimento num isolamento angustiado e desgastante. Quando contei a ela foi um drama: eu era uma traidora e já não podia confiar em mim. Com o tempo conseguimos superá-lo e a nossa amizade foi sobrevivendo. Como desabafo contei toda a história a uma amiga comum, e numa noite um pouco estranha demos uns beijos, e lembro-me que foi uma experiência avassaladora, que me assustou por tudo ter sido tão bom e pelo sentimento de perda de controle. Nada mais se passou com essa outra amiga e continuamos a nossa vida como se nada tivesse acontecido, tal era a nossa incapacidade para lidar com o assunto. Pouco tempo depois conheci um rapaz por quem me apaixonei e estive com ele durante uns quatro anos. Esqueci completamente o que se passou, na verdade estava muito apaixonada, e apesar de lhe ter contado a história, deixei de lhe dar importância, quem sabe também porque seria o mais cômodo. Ao fim deste tempo de namoro conheci uma mulher por quem me apaixonei completamente. Era um sentimento muito forte, ao mesmo tempo que muito platónico, porque mais uma vez o vivia em silêncio. Ao fim de algum tempo tive que desabafar, e a primeira pessoa com quem o fiz foi precisamente com o meu namorado, que reagiu muito bem. De certa forma esta confiança ainda nos unia mais e continuamos juntos durante mais algum tempo, mas este já foi um sentimento muito sofrido porque eu não conseguia deixar de gostar dela e começava a rejeitá-lo sexualmente. Finalmente separamo-nos. Não nos separamos num dia, foi um processo gradual em que nos apoiamos mutuamente. Porque uma vez terminada a paixão ou o amor há ainda tanto que perdura e é muito duro ter de abdicar de tudo isto de um dia para o outro. Vivemo-lo na medida das nossas capacidades e sabedoria, penso que o fizemos mais ou menos bem porque não nos magoamos muito e fomos sempre tão honestos que às vezes até doía. Mais ou menos por esta altura também, a minha mãe confrontou-me perguntando-me se eu não teria algo para lhe contar. Depois de o negar muitas vezes disse que estava em dúvida em relação a minha orientação sexual, o que era uma mentira porque já tomara por um fato a minha homossexualidade, mas sempre há maneiras mais gentis de dizer as coisas. A sua primeira reação foi um discurso pseudo educativo em que afirmava que compreendia que eu me sentisse mais identificada com as mulheres e que isso também já lhe acontecera mas que não era o mesmo que atração sexual e falou também de opções que se tomam e coisas assim. Apesar de este perfil ser aparentemente negativo, a verdade é que a minha mãe é uma pessoa extremamente aberta e tem, sempre teve, uma atitude de tolerância e diálogo ativo. Aos poucos, e há medida em que nos íamos sentindo cada vez mais confortáveis com o tema fomos falando de forma cada vez mais honesta e frontal, e agora ela me entende muito melhor do que a minha irmã, por exemplo, que tem 29 anos, e para quem o assunto ainda é bastante problemático. Com o passar dos tempos todos os meus amigos passaram a saber, comecei a conhecer pessoal gay e a navegar por sites gays e etc...o percurso normal. Neste momento é algo natural e intrínseco, que não exibo nem deixo de exibir, tento que seja um assunto tanto e tão pouco importante na minha vida como todas aquelas questões que fazem parte do mais íntimo da tua personalidade. Não é uma bandeira, é um simples fato. Penso que ainda é muito difícil ser gay em qualquer lugar, muito mesmo, pelo menos nas cidades menores. Penso que nos ensinam a pensar de determinada maneira e que a aceitação da pópria homossexualidade ainda é algo árduo de conquistar. Eu o fiz à custa de ansiedade, angústia e sofrimento, e suponho que como eu muitas outras. É uma pena que as coisas ainda sejam assim, que tudo tenha que ser tão difícil, e que problemas que não precisam existir existam e inflamados a um nível difícil de compreender. Assim mesmo nunca perdi um amigo ao dizer-lhe que era lésbica, nunca ninguém me atacou ou ofendeu. Mas isso sim, já muito gente tentou me convencer do contrário, tentou ignorar o assunto, demostrou verdadeiro medo perante a idéia. Enfim... Nestas alturas fazia um esforço por recordar o percurso que eu própria tive de fazer, e dava tempo às pessoas para assimilarem a idéia. Agora, confesso que já não tenho a mesma paciência (o que à sua maneira não deixa de ser uma atitude de igual falta de tolerância), enerva-me a mesquinhez e a tacanhez de espírito da nossa sociedade, o medo que tem da ambiguidade e do indefinido, do diferente, do desconhecido. Mas esta não é uma razão para deixar de acreditar e acomodarmo-nos, esta é apenas uma razão para compreendermos o quanto é cada vez mais imperativo e necessário este momento pessoal e único que é o "coming out"  de cada um, mas que contribui no abrir caminho para um "coming out" coletivo, de cariz social, e que possibilite, num futuro mais ou menos próximo, que a questão “queer” seja uma questão ultrapassada."

  Sofia, 26 anos

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  • Postado em 10:21:06

O coming out de Pedro

categorias: O que é?

"Tal como muitos outros jovens eu também sou homossexual. No entanto escapo à grande maioria porque foi só há cerca de 2 meses, com 21 anos, que me assumi como homossexual perante mim próprio. A minha infância e adolescência foram passadas sem que me apercebesse de forma clara da minha verdadeira orientação sexual. Tive algumas “namoradas”, mas era tudo baseado em “amores platônicos”, em que o mais importante para mim era saber que ela gostava de mim e não tanto se eu gostava dela, porque o que pretendia era carinho, atenção e amor. Eu, no entanto, não tolerava beijos ou toques mais sensuais, e mesmo as mãos dadas era intolerável, porque me sentia verdadeiramente mal com isso; razão pela qual elas acabaram sempre os “namoros”. Foi no segundo ano de faculdade que comecei a notar que de fato sentia algo de uma forma “estranha”. Não conseguia encontrar nas meninas nada de atraente, e questionava-me como é que era possível que os meus colegas ficassem “loucos” quando viam uma garota que correspondia ao estereótipo de “mulher gostosa”. Pelo contrário, conseguia distinguir perfeitamente um rapaz bonito e atraente de outro menos bonito. Achava alguns rapazes verdadeiramente atraentes, em especial um rapaz da minha classe, no entanto, por saber que isso estava “errado”, retraí sempre os meus sentimentos. Entrei num período de negação da minha homossexualidade de tal forma violenta que me tornei o rapaz mais homófobo da minha turma. Durante cerca de dois anos mantive uma vida dupla infernal: por um lado era o rapaz que detestava os “gays”, que estava sempre, estrategicamente, comentando sobre todas as mulheres que passassem por mim, em especial se os meus colegas estavam ao meu lado, para que nunca suspeitassem do meu “segredo”; por outro lado, era o rapaz que chegava em casa sempre deprimido e triste, sem qualquer auto-estima ou objetivos, passava os dias fechado no quarto a não fazer nada, não tinha capacidade de concentração e não tinha qualquer prazer em estudar, evitava sair porque não conseguia me divertir de tão amargurado que estava, sabia que alguma coisa estava errada comigo, mas pensava que seria uma fase, um percalço na minha evolução e/ou desenvolvimento, e que esta atração por rapazes iria acabar por desaparecer com o tempo, enquanto continuava a ver todos os sites na Internet sobre gays que pudesse encontrar. Esta dupla vida horrenda não me deixava respirar. Quer em casa quer na faculdade o teatro era uma constante. Sorria ao ver outros falarem mal dos homossexuais, ao mesmo tempo que ia achando cada vez menos piada aos comentários homófobos porque os via cada vez mais como ataques pessoais, evitava mostrar sensibilidade e lutava imensamente para nunca cair na tentação de olhar descaradamente e com desejo para um rapaz à frente deles. Todo este acumular de situações desagradáveis desembocou numa profunda depressão, tristeza, apatia, perda de apetite, desprezo por mim mesmo, falta de auto-estima e auto-confiança, dificuldades de concentração e ataques de pânico sem razão aparente. Chegou a um ponto em que eu tive que admitir perante a mim próprio que “talvez” eu até podia ser homossexual. Comecei a juntar todas as peças do puzzle que teimava em não montar. Precisava contudo dizer isso a alguém para me convencer a mim próprio, o que veio a acontecer há cerca de dois meses quando desabafei com uma colega da minha classe. Foi o descarregar de um peso monstruoso que estava em cima de mim. Contudo, passado algum tempo as coisas começaram a descontrolarem-se. Comecei a verificar que encontrar um parceiro seria extremamente difícil e comecei a pensar que no futuro não conseguiria discernir com clarividência, as dificuldades de ser um homossexual de um momento para o outro. Não encontrava saída para a minha angústia, para o imposto sentimento de pecado, para a impossibilidade de contar aos meus pais e aos meus colegas de faculdade. Encontrava-me perante um dilema: por um lado tinha admitido ser homossexual e por outro esse fato parecia que ia me tornar infeliz para todo o sempre. Comecei então a escrever poemas para descarregar os sentimentos retraídos e as angústias de um mundo desconhecido. Mas não bastava; estava à beira do precipício. Foi então que tentei o suicídio ao tomar comprimidos em excesso. Uma colega e um colega da faculdade levaram-me ao hospital por volta das três da manhã, onde fui atendido e encaminhado para a psiquiatria, onde fui por sua vez aconselhado a iniciar sessões de acompanhamento psicológico. A partir deste dia, que lamento imensamente ter acontecido, contei a mais amigos meus que era homossexual e desenvolvi um grupo pequeno de cinco colegas que me ajudam imensamente. Quanto à minha família contei a uma prima minha e à minha mãe, e ambas reagiram muito bem. Estou neste momento tendo sessões de aconselhamento psicológico e tomando um anti-depressivo leve e tudo está caminhando melhor. No entanto continuo a não conhecer quase ninguém que seja homossexual, só conheço um rapaz mais velho que já acabou o curso e já está trabalhando, e talvez por causa disso viva com o receio que a relação dita monogâmica, que gostaria de ter com um rapaz, não exista. Neste momento o meu maior medo é não encontrar ninguém com a capacidade de ser fiel e de se entregar totalmente numa relação estável a dois."

Pedro, 21 anos

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  • Postado em 10:18:55