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"Certa vez, precisei dormir na casa de uma amiga e, como estávamos vindo de uma balada, não carregava comigo minha nécessaire. Pós-balada é aquela nhaca: você parece um cinzeiro ambulante. Tudo em você fede a cigarro: roupas, cabelo, tudo. Mesmo para quem não fuma, até as entranhas estão cheirando a tabaco. Certamente, aceitei e agradeci um banho antes de deitar. Mas, colocar a mesma calcinha? Como minha amiga mora com os pais e o irmão, a única solução que encontramos foi um pacote de cuecas novas que ele acabara de comprar. Antes uma cueca nova que uma calcinha "a la Marlboro", pensei. O que eu realmente não esperava era a sensação de mal-estar que sentiria ao vesti-la. Coloquei a cueca e um pijama uns três números menores do que o que uso normalmente (o que me fez sentir um gigante na terra do Pequeno Polegar) e segui para o quarto sem olhar para os lados, como se estivesse vestida com a roupa do rei de Roma (aquela que não existia, lembra?) e só a cueca estivesse à mostra. Fiquei ali, rolando na cama, me perguntando porque aquela cueca estava me incomodando tanto, afinal, era muito mais confortável que calcinha e não passava de um pedaço de algodão com uma abertura na frente. Cheguei à seguinte conclusão: somos tão condicionadas e moldadas pela sociedade que aceitamos sem questionar tudo o que nos é imposto. "Menina usa calcinha e menino usa cueca", já dizia nossa mãe quando éramos pequenas. As peças íntimas acabaram tornando-se símbolos do gênero. Se você usar cueca, certamente será uma aberração. Por quê? Qual a diferença? Ambas servem para cobrir e proteger a genitália, independente do seu formato. A sociedade confunde a lesbiandade com o desejo de ser homem. Talvez esse fantasma também tenha me assombrado ao vestir aquela ínfima peça de roupa. E se minha amiga (que por acaso era hétero) pensasse que eu quero ser homem? Minha cabeça girava em questionamentos insanos. Primeiro porque eu não pedi para vestir a cueca, logo, como ela pensaria isso? E depois, esse seria um problema único e exclusivamente meu, já que eu poderia sofrer de Transtorno de Identidade de Gênero*, o que obviamente não é o caso. Aquela experiência foi tão contundente que jamais a esqueci. Algo tão simples me fez ver coisas tão profundas e arraigadas na memória e que eu deixava tomar conta de mim sem lutar ou questionar. Eu posso sim, quando eu bem entender, usar cueca ao invés de calcinha e isso nunca me fará mais ou menos feminina, mais ou menos lésbica. Desde então mantenho uma boxer na minha gaveta (de microfibra, deliciosa) e uma Slip fashion que ganhei de uma amiga e as uso sempre que tenho vontade. Algumas namoradas estranham no começo, mas depois de explicado este episódio, algumas até aderem à moda. Aliás, aqui para nós, é muito mais gostoso e não aperta a virilha. Portanto, eu te desafio a usar uma cueca. Mas não vale usar entre o banheiro e o seu quarto. Saia de casa de saia e cueca, de calça e cueca, só de cueca se você quiser (vai saber?) e sinta-se livre!"
Pioneira: a atriz Sharon Stone posa para foto vestindo uma cueca
***O Transtorno de Identidade de Gênero caracteriza-se pela pessoa acreditar ou querer ser do sexo oposto, tendo um sofrimento e uma estranheza muito grande com seu próprio sexo e com o seu papel social.
(texto de Nina Lopes, escritora e editora do site “Sobre Elas”)