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"Assumir sai de nós. É o que há dentro e quer saltar, quer tornar-se público, de todos. O individual a tornar-se universal, ou pelo menos, universalmente reconhecido como nosso. Assumir é um fogo que sai de repente, sem que tenhamos que pensar ou ponderar. Assumir é espontâneo, é dizer bem alto aquilo que não escolhemos mas simplesmente somos, porque nascemos assim, porque assim quis Deus moldar a nossa alma. Assumir é o autônomo reconhecimento de características que nos são inatas e que heteronomamente nos foram impostas.
Decidir é o contrário. É ter que escolher entre as mil e uma hipóteses que a heteronomia do exterior nos impõe, é um constante optar, pensar e repensar, entre o bem e o mal, ou entre o bem e o menos bem, ou entre o bem e o bem, ou entre duas coisas totalmente péssimas mas sem que nos dêem a terceira hipótese que é a de não optar.
Assumi que sou lésbica há muitos anos. Quando a evidência das paixões assim o demonstrou. Quando se tornou inevitável ouvir o bater do coração bem forte pela Maria, pela Joana, pela Andreia, em oposição à sua indiferença pelo Manuel, pelo José, pelo André. Assumi-o de mim para comigo como uma evidência à qual não poderia fugir, de que não me poderia esconder. Negá-lo seria negar-me a mim própria, negar-me na minha essência. Todavia, nesse dia percebi também que nunca poderia assumí-lo. Nesse dia decidi que o mundo nunca me conheceria assumidamente. A escolha seria entre revelar a minha diferença e ser gozada, maltratada, excluída e tantos outros adjetivos pejorativos que a imaginação cruel da sociedade consegue alimentar, ou continuar a viver duplamente, como sempre, saboreando as paixões internamente enquanto apreciava a forma como o mundo admirava aquilo que externamente escolhi ser. Decidi ser decisão a cada passo. Pondero as palavras, os olhares, as atitudes. Tudo em mim é pensado, puro exercício de lógica o meu viver quotidiano. Tudo para que a essência não se revele e inopinadamente um pequeno gesto me denuncie e me obrigue a assumir. Decisão difícil, pensarão. Polêmica, reconheço. Mas como fugir à dificuldade quando a toda a hora nos impõe escolhas, decisões, opções, pequenos caminhos que determinam a nossa vida para sempre sem que antes nos ofereçam os dados todos com que vamos poder jogar? E pior, que outra poderia ser a decisão se esses dados estão viciados, rotulados à partida? Será polêmica a minha decisão. Mas tenho-me dado menos mal com ela. Ainda que todas as noites ao deitar me pergunte se não seria mais feliz se em vez de decidir o meu futuro optasse antes por assumi-lo. Assumidamente optei por decidir a cada passo. Assumidamente fi-lo consciente do desejo de decidir assumir-me. Um dia destes!?"
(texto da criadora do blog português "Assumidamente")