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"Sabia-se presa na moldura daquele quadro, olhando impassível os que por ela passavam, como se aquelas cores perfeitas fossem as suas. Alguém a tinha pintado assim, idealizado, retocado nos pormenores. Depois de a ter prendido naquela tela para sempre, acrescentou a moldura, como a porta de uma cela dourada. Imaginava-se a preto e branco, dramática, ou em pinceladas de cores fortes, revelando todos os contrastes. De alguma forma, detestava aquela perfeição que o pintor lhe atribuíra, aquilo que o retrato mostrava. Culpava-se por ter sido capturada assim, escondendo os tons escuros da sua personalidade. Foi-lhe doloroso entender que precisava planejar uma fuga. Apercebeu-se de que o tempo corroía a moldura, pouco a pouco. Esperou até que a primeira lasca se soltou. E depois outra. E outra. Era agora só uma questão de paciência. Em breve a moldura partiria, deixando-a fugir para um cenário onde pudesse mostrar todas as cores da vida, sem moldura fixa, sem enquadramento."
(texto da criadora do blog "Mulheres de 50 a 60", a escultura é de Bill Mack)