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"Queria chamar-me Doroty, com ipsilon e morando em hotel, na companhia de uma mulher que nem eu. Queria que à minha chegada todos levantassem, cagados de medo das farpas que trago na língua. Queria mudar o mundo em duas sentenças e uma oração. Queria que os fanáticos vomitassem deus à sua semelhança. Queria menos família em qualquer parte. Queria perder o respeito, estribeiras, elegância: cinderela pelo avesso. Queria mentir descaradamente a uma boa mulher honesta. Queria jamais ser mulher boa e honesta. Queria enfiar foguetes no cu dos prepotentes. Queria sair pra comprar cigarros e errar de vez. Queria que entendessem que também sou o que não dou. Queria esquecer dos olvidados e dormir com isso. Queria todos as amantes do mundo e nenhuma vergonha na cara. Queria deitar com uma e acordar com tudo. Queria devorar a gênese e não arcar com as conseqüências. Queria cuspir pela janela e acertar na testa dos imbecis. Queria escrever mais e melhor pra enganar menos e mandar todos os superlativos às favas. Contadas. Queria uma trouxa pra me carregar no colo e uma trouxa pra partir imediatamente. Queria um adjetivo que prestasse e uma verdade que bastasse. Queria escancarar todas as portas sem parecer traição. Queria rir por último. Queria acreditar. Queria olhar um mapa e saber onde estou pra onde vou, por que. Queria aplicar contos e jogar meus valores na bolsa. Queria transgredir todos os mandamentos, sem fundamento. Queria poder olhar pra trás e esculpir meus erros em sal. Queria foder com os pobres de espírito tanto quanto eles comigo. Queria que houvesse uma boa razão pra razão ser tão importante. Queria gostar da terra e dos animais e me contentar com isso. Queria ter 15 anos e um futuro inútil pela frente. Queria não ter um mundo ignóbil pelas costas. Queria não dar bola pra emprego, rasgar dinheiro, fazer escândalo por ninharia, botar pra quebrar. Queria menos avestruzes à minha volta e um passarinho pra soltar. Queria perder os sentidos sem risco de encontrá-los novamente. Queria desmaiar de emoção. Morrer de tesão. Viver pelo sempre. Queria um beijo grátis. Queria que a verdade não fosse o que é, eu não fosse o que sou, revogadas todas as disposições em contrário. Queria gostar do que vejo, sem necessidade de quebrar o espelho. Queria ser outra, outro, qualquer coisa que valha, no mínimo, à pena. Queria que dor não fosse substância que se imprime por dentro. Queria ser artista, não cronista. Queria."
(texto adaptado do original “Queria” de Clarice Muller, a Issi)