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Título original: “Mysterious Skin”
Gênero: drama
Origem: EUA/Holanda
Direção: Gregg Araki
Roteiro: Gregg Araki, baseado em livro de Scott Heim
Com: Brady Corbet, Joseph Gordon-Levitt, Michelle Trachtenberg e Jeffrey Licon
Premiações: Ganhou dois prêmios no Festival de Seattle, nas categorias de Melhor Diretor e Melhor Ator (Joseph Gordon-Levitt)
O cineasta espanhol Pedro Almodóvar já abordou a pedofilia dentro da Igreja em “Má Educação”. Agora, o americano Gregg Araki conhecido por seus filmes com temática gay, retrata a vida de dois personagens que sofreram abusos sexuais durante a infância em “Mistérios da Carne” e é uma adaptação do livro autobiográfico de Scott Heim. No filme, Araki explora as vidas de Brian (Brady Corbet) e Neil (Joseph Gordon-Levitt, em interpretação madura), dois garotos que vivem em uma pequena cidade do Kansas, nos Estados Unidos. As histórias desses personagens correm em paralelo e cada um absorve o trauma do abuso sexual de uma maneira: enquanto Brian acredita piamente que foi abduzido por extraterrestres, o precoce Neil, que se masturba pela primeira vez aos oito anos, se insinua para o treinador de baseball pedófilo (Bill Sage) para tentar ser reconhecido como o melhor do time. A cena inicial, em que o pequeno Neil recebe uma chuva de cereais coloridos – uma clara metáfora do gozo – adianta o clima tenso que vai perdurar até o final da película. A narrativa do filme vai se desenvolvendo de forma linear, mas não menos densa e corajosa. A pedofilia que poderia ser tratada explicitamente é explorada sutilmente em cenas desconfortáveis para os mais conservadores. Da metade do filme em diante, o espectador vê as vidas dos agora adolescentes se desenvolverem cruel e tragicamente - Araki é hábil e sincero ao lidar com os traumas dos garotos. Brian se transforma em um adolescente assexuado com dificuldades em relembrar do seu passado; Neil ganha uns trocados como michê e mantém uma intensa amizade com Wendy (Michelle Trachtenberg) e Eric (Jeffrey Licon). Mais tarde, depois que Neil vai para Nova York, Brian tenta descobrir a chave para desvendar seu passado e os dois confrontam suas memórias em uma tocante cena nos minutos finais do filme. “Mistérios da Carne” é ousado porque, em uma sociedade como a americana, Araki consegue abordar a pedofilia de forma sutil, mesmo levando em conta a complexidade do assunto. O espectador encontra no filme importantes referências para entender os traumas que os abusos ocasionaram nos garotos. Traumas esses intensificados com a ausência do pai de Brian durante a infância e a mãe bastante liberal de Neil. Apesar da estética pop, o filme de Araki tem uma narrativa que foge do óbvio, do palatável. Nada é explícito e as cenas que poderiam ser consideradas mais chocantes são dirigidas com mãos firmes e inteligentes. Provocante, “Mistérios da Carne” é um filme que deve ser visto.
(sinopse de Paco Llistó do MixBrasil)