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Para amar uma outra mulher é preciso muita audácia.
"A profundidade de uma experiência emocional entre dois iguais é, sem sombra de dúvida, duas vezes maior que entre casais heterossexuais. Não estou desmerecendo ou diminuindo uma relação entre pessoas de sexos diferentes, é apenas uma constatação óbvia que pessoas do mesmo sexo se entendem mais e melhor. A compreensão mútua, a abertura e a capacidade de se entregar integralmente faz com que relações entre mulheres sejam ainda mais peculiares. Só uma outra mulher sabe o que é acordar no auge da TPM, com um humor péssimo e bater o dedinho do pé esquerdo na quina da cômoda do quarto. Nenhum homem seria capaz de compreender a fúria que nos domina neste instante. Ou chorar compulsivamente assistindo Animal Planet enquanto come uma caixa inteira de bombons sortidos, só para abrir o apetite. Somos complexas, intensas e profundas. Quando duas mulheres se amam, todos estes predicados são multiplicados e o resultado é uma relação onde estamos prontas para ganhar ou perder tudo, não há meio termo. Entramos de cabeça no sentimento, nos deixando dominar inteiramente por ele. O que nos impulsiona é a certeza que seremos 100% correspondidas (mesmo que esta certeza seja apenas uma ilusão que criamos para podermos nos entregar) porque sabemos que a outra pessoa nos entenderá perfeitamente. Até mesmo o contato íntimo é potencializado. Uma vez que não há a possibilidade da gravidez, a mulher entrega seu corpo à outra sem nenhum medo ou apreensão. O instinto maternal latente, ainda que não queiramos ter filhos, faz com que amemos e protejamos nossos objetos de paixão e desejo e sejamos igualmente amadas e protegidas. Quando duas mulheres dividem o mesmo espaço, a casa torna-se um útero quente e aconchegante que nutre diariamente este amor sublime e cheio de encantos. Mas, como tudo na vida tem o seu peso e a sua medida, uma separação é igualmente intensa e dolorosa. Separar-se da mulher com quem se dividiu tudo é como perder o rumo da própria vida. A sensação é de que somos desmembradas e afastadas de tudo o que nos mantém em pé. É partir, mas deixar uma parte de si para trás. Algumas pessoas têm uma capacidade incrível de recuperar-se e continuar em frente. Outras precisam de um tempo maior para reconstruir-se até que se sintam seguras para recomeçar. A vida é cíclica e aceitar que estamos aqui para começar e terminar ciclos ajuda a compreender certos aspectos dolorosos que vez ou outra precisamos enfrentar. Poder sentir-se absolutamente amada, não importa por quanto tempo, compensa qualquer dor que possamos sentir. Para amar uma outra mulher é preciso muita audácia. Experimentar o furor que enlaça nossas almas, consciente que a dor que possivelmente o sucederá será tão intensa quanto exige coragem. Literalmente. A palavra “coragem” (do francês courage que deriva de cour “coração” + o sufixo age) significa disposição nobre do coração, qualidade espiritual de bravura e tenacidade, características que nós mulheres temos em abundância. Entendo quem escolha ficar na superfície, mas certamente estas nunca saberão o prazer intenso que traz um amor verdadeiro e cúmplice. Courage m´amie. Courage!"
(Nina Lopes – jornalista e editora da revista "Sobre Elas")