Lara & Mara*

Para mulheres que amam mulheres com leveza e beleza

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Terra Blog

Arquivo de: Novembro 2006, 20

20.11.06

Malu Mulher: vale a pena ver de novo

categorias: Filme e pipoca

"Rever os 10 episódios de “Malu Mulher” que a Globo lança em DVD é quase didático e serve para mostrar como, nesses quase 30 anos, desde que a Globo refletiu as expectativas das telespectadoras, muita coisa mudou por força da pressão e da determinação das mulheres. Estão lá alguns temas fundamentais da emancipação: escolaridade e entrada no mercado de trabalho, autonomia em relação aos maridos, satisfação sexual e pessoal, maternidade e número de filhos, separação e divórcio e, principalmente, violência. Rever “Malu Mulher” é perceber o quanto a sociedade brasileira mudou, impulsionada também pelo anseio das mulheres de exercer um novo papel. Libertar-se era muito mais do que uma bandeira pessoal de emancipação. Era também engajar-se – para usar uma palavra em moda na época – numa mudança que, felizmente, veio e tornou as relações mais horizontais e democráticas. A única coisa a lamentar é a TV ter perdido a capacidade de reverberar com a eloqüência de então o que acontecia na vida de seus espectadores e espectadoras."

O ano era 1975 e um grupo de mulheres cariocas promoveu na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) a semana de debates “O papel e o comportamento da mulher na realidade brasileira”, evento que reuniu platéia de mais de quatrocentos participantes e deu início ao Centro da Mulher Brasileira (CMB), primeira organização feminista no país. A partir daí, começaram a se organizar diferentes movimentos de mulheres. Eram tempos de ditadura. Os grupos feministas e as organizações de esquerda trabalhavam juntos contra o regime militar. Dessa aliança surgiu a bem sucedida campanha pela anistia, liderada por uma mulher, Therezinha Zerbini. Juntava-se a luta política pela redemocratização do país com a bandeira feminista de liberdade. Quatro anos depois, em maio de 1979, a Rede Globo de Televisão botou no ar o seriado “Malu Mulher”, protagonizado por Regina Duarte e tendo o hoje consagrado autor de novelas Manoel Carlos entre os roteiristas. A iniciativa foi um marco importante na história do feminismo no Brasil: a entrada na mídia dos temas que as mulheres vinham discutindo em seminários restritos a militantes e estudiosas amplificou e deu visibilidade aos problemas que mulheres de classe média das grandes cidades enfrentavam então. Por isso, dos dez episódios que integram os dois DVDs da caixa, chamam atenção:

Separação: Malu e Pedro Henrique estão infelizes e ela está decidida a pedir a separação – divórcio foi palavra introduzida depois, até ali falava-se em desquite. A cena é clássica. Ela quer conversar, ele reclama e diz que não entende do que ela está falando. O típico clichê do homem que não se interessa em discutir a relação, enquanto a mulher é um poço de angústias em relação à vida. Confirma a idéia de que os personagens masculinos de Manoel Carlos são, em geral, uma ofensa aos homens: rasos, sem profundidade. Naquele contexto um marido não costumava mesmo dar ouvidos a esse tipo de reclamação. No final da noite, ela decide pela separação, depois de uma violenta cena na qual leva um tapa na cara e o espectador descobre não ser a primeira vez que apanha do marido. Socióloga, Malu deixou de ser “a mulher do Pedro Henrique” para assumir a profissão. Começavam a surgir as primeiras contradições: trabalhar era ótimo, mas chegar cansada depois de um dia de compromissos e ainda fazer o jantar, pagar as contas e depois disso tudo dormir sozinha, já não era assim tão bom. Quando Malu foi trabalhar na ficção, na vida real as mulheres seguiam os mesmos passos: nos anos 1980 eram 10 milhões de mulheres empregadas. Vinte anos depois, já eram 25 milhões. A escolaridade foi o grande impulsionador da presença feminina no mercado de trabalho. Hoje, as mulheres têm maior nível de escolaridade do que os homens, diferença registrada desde o ensino médio e até a universidade: em 2002, 31% das mulheres brasileiras e 28% dos homens tinham o 3º grau completo.

Violência: “Mata, porque você nunca mais encosta a mão em mim”, diz Malu ao marido depois de levar um tapa. A indignação que aparece aí volta com força num episódio exclusivamente dedicado ao tema. Um casal de vizinhos, interpretados por Marília Pêra e Gianfrancesco Guarnieri, encarna com perfeição o tabu que cercava – e ainda cerca, embora em menor intensidade – o tema. Ela apanha todas as noites, mas não quer denunciar o marido. Depois de uma crise, as coisas melhoram. O marido tem o discurso de todos os preconceitos da época: mulher casada não podia querer sair sozinha porque é “vagabunda”, não sabe o que é trabalhar nem tem qualificações para isso, portanto é dependente dele e lhe deve obediência. Malu discute a idéia da esposa como “objeto de posse” do marido e o episódio termina com a separação do casal de vizinhos. Marília Pêra impressiona com a personagem que apanha por achar que “não passa de uma mulher”. O problema aqui e em outros episódios é o tom de vitimização da mulher. Repete-se, na TV, o discurso com o qual o movimento feminista começou e hoje repudia, mas infelizmente permanece no imaginário popular como sendo a tônica: feminino versus masculino, homens versus mulheres. De fato, a contestação do patriarcado como estrutura social que justificava a submissão das mulheres e as mantinha no papel de meras coadjuvantes passou pela ampla difusão de um antagonismo algozes versus vítimas. O que hoje é percebido como um problema histórico, naquele momento fazia todo o sentido: a vida das esposas era controlada pelos maridos, a das filhas pelos pais.

Homossexualidade: Sob o título de “A melhor amiga”, Manoel Carlos assina o que provavelmente foi a primeira aparição do tema da homossexualidade feminina na TV. Pela seqüência que deu ao assunto em diversas outras novelas, percebe-se que o autor tem particular interesse pela motivação das mulheres que optam por essa orientação sexual. Ângela Leal faz o papel de Maria, uma amiga desquitada como Malu, que se apaixonará por ela depois de uma noite de troca de confidências regada a vinho tinto. É talvez o que mais carrega nas tintas do estereótipo e apresenta a lésbica como aquela que não conseguiu estabelecer uma boa relação com os homens. A possibilidade de identificação entre as duas parte do desabafo de Malu, que abre o episódio: “Homem, relação com homem, ainda é uma coisa muito difícil para mim, depois de 13 anos de casamento”. Maria encarna a mulher que, insatisfeita com os homens, aderia à homossexualidade para liberar-se do paradigma da heterossexualidade como única opção possível. Felizmente, as obras recentes do autor mudaram o tom em relação às homossexuais, que já não são apresentadas assim desde “Mulheres apaixonadas”, novela de 2002. De qualquer maneira, o episódio é dos mais ousados para a época: em 1979, quando o programa foi exibido, a norte-americana Betty Friedan já havia causado furor numa visita ao Brasil, trazida pela escritora Rose Marie Muraro. Em 1971, sua histórica entrevista ao “Pasquim” teve grande repercussão e começou o processo de popularização do debate sobre a condição feminina no Brasil. Em contrapartida, Rose foi taxada de “sapatão”, embora seja casada e mãe de três filhos.

(por Carla Rodrigues do blog "Contemporânea" do site NoMínimo)

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  • Postado em 07:10:31