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Terra Blog

Arquivo de: Novembro 2006, 28

28.11.06

Homenagem a uma lésbica: Mercedes de Acosta

categorias: Homenagem

Dramaturga, estilista de moda, poetisa e grande sedutora

"Dois fatos capitais marcaram o início da vida de Mercedes de Acosta (1893-1968), norte-americana de origem hispânica: o suicídio do pai, que se atirou do Yosemite Canyon e o travestismo que lhe foi imposto pela mãe. Decepcionada por ter mais uma filha, passou a tratar a criança como se fosse um varão. Até os oito anos de idade Mercedes pensava que era homem. Sua mãe a vestia com roupas de menino e a chamava de Rafael. Quando um amiguinho mostrou a ela o seu pingolim, ela voltou para casa chorando, desolada por ter descoberto que era mulher. Mais tarde, atribuiu a este “incidente” suas tendências homossexuais. Idolatrava a sua irmã mais velha, Rita, uma patrona das artes, através de quem ficou conhecendo os mais badalados artistas da época. Essa convivência precoce com todo o tipo de celebridade, provavelmente determinou seu gosto pela arte e pelas estrelas...Começou a escrever para o teatro e para o cinema, quase como desculpa para ficar perto das divas que tanto amava. Apesar de ter se casado com o socialite Abram Poole, em 1920, o acordo matrimonial permitia aos dois uma ampla liberdade de movimento. Mercedes, famosa por sua estampa andrógina - cabelos curtos com brilhantina e roupas masculinas - vivia cheia de namoradas. Preferindo as estrelas às anônimas, Mercedes começou sua carreira lésbica com ninguém menos que Isadora Duncan (foto), em 1917. Isadora era dezesseis anos mais velha que ela e, mesmo depois que a relação terminou, permaneceram amigas. De Acosta socorreu Isadora nos momentos de aperto financeiro e a ajudou a escrever sua famosa autobiografia. Contratada, em 1929, pela RKO como roteirista, mudou-se para Califórnia, onde namorou outras atrizes, mas foi uma outra divindade das telas que arrebatou seu coração para sempre: Greta Garbo (foto). Começava um atribulado caso de amor, que durou 28 anos. Mercedes e Greta se conheceram através de amigos comuns em Hollywood e simpatizaram uma com a outra. Logo no primeiro encontro Greta colheu uma flor no jardim, ofereceu-a à Mercedes e declarou: "agora você não pode dizer que eu nunca lhe dei uma flor". Durante uma de suas fugas para longe do agito de Hollywood, Garbo convidou Mercedes para passar três semanas com ela numa ilha deserta no Silver Lake, Sierra Nevada, e parece que foi aí que o romance começou. Sobre estas semanas idílicas Mercedes escreveu: "Ninguém pode conhecer a verdadeira Greta a menos que a tenha visto como eu a vi em Silver Lake; eu nunca ri tanto em minha vida, e foi Garbo quem me fez rir". Mas a lua-de-mel não durou para sempre. Garbo prezava demais sua privacidade, o seu isolamento e logo percebeu que Mercedes era do tipo obcecada e insistente. A partir daí o relacionamento delas sofreu altos e baixos: era turbulento quando Garbo queria ficar só e Mercedes insistia em vê-la; e agradável, quando a atriz sentia saudades e De Acosta atendia aos seus chamados como um cãozinho treinado. Entre as idas e vindas com Garbo, Mercedes de Acosta conheceu Marlene Dietrich (foto), com quem intercalou seu tempo e disponibilidade. Depois que Mercedes se convenceu que seu caso com Garbo não tinha futuro, foi se consolar nos braços de Marlene Dietrich. Mas mesmo um affair com outra deusa do cinema não foi suficiente para Mercedes esquecer Garbo. Para piorar, quando começaram a sair as suas primeiras biografias não autorizadas, a atriz sueca ficou furiosa com algumas indiscrições relatadas por Mercedes e rompeu de vez a amizade. Elas nunca voltaram às boas. Dramaturga, estilista de moda e poetisa, Mercedes sempre vestia-se de branco ou preto, nunca foi vista usando roupas coloridas. Uma mestra na arte de seduzir, tinha certeza de que era “capaz de tirar a mulher de qualquer marido”. Os sapatos eram de bico finíssimo, décadas antes de virarem moda e era vegetariana antes desta tendência se estabelecer como alternativa alimentar. Embora pacifista, juntou-se à causa da república espanhola, angariando donativos entre seus amigos hollywoodianos. Em 1938, num momento em que as mulheres tinham autonomia restrita, Mercedes de Acosta rodava sozinha pelo mundo e, em busca da paz espiritual. Católica quase fanática, tornou-se adepta das religiões orientais até o fim da vida. A segunda Guerra Mundial e a política homofóbica de McCarthy quebraram o encanto do círculo feminino cinematográfico. Algumas atrizes lésbicas fizeram casamentos heteros para salvar as aparências e suas carreiras, outras - como Garbo - simplesmente saíram de cena. Mercedes mudou-se para Paris, onde viveu durante a década de 50. No início dos anos 60, publicou sua biografia “Here Lies the Heart”, considerada obra referencial da literatura GLBT. O fato é que Mercedes foi a primeira celebridade a revelar numa autobiografia as suas ligações homossexuais. Mercedes morreu em 1968 e, segundo Cecil Beaton, "ela ficou doente, pobre, mas ela nunca ficou velha. Ela era a mais rebelde e descarada das lésbicas".

  

Isadora Duncan, Greta Garbo e Marlene Dietrich

(texto escrito por Cilmara Bedaque e Vange Leonel do site MixBrasil)

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  • Postado em 05:23:41