Lara & Mara*

Para mulheres que amam mulheres com leveza e beleza

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Para mulheres que amam mulheres com leveza e beleza
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Terra Blog

Arquivo de: Janeiro 2007

30.01.07

Risos preconceitos e bom comportamento

categorias: Definindo II

De tempos em tempos sou bombardeada com piadas preconceituosas. Não gosto de nenhuma piada, mas essas não tolero. Anedotas sobre portugueses, japoneses, advogados, louras, negros, etc...Outras tantas vezes sou alfinetada com piadas sobre homossexuais. Nem leio, deleto. O brasileiro, diferente de outros povos, tem grande dificuldade em lidar com as diferenças. É difícil, por exemplo, compreender que nós homossexuais o somos por amarmos alguém do mesmo sexo, mas fora isso somos um homem, uma mulher, uma filha, uma mãe, uma amiga, uma profissional, uma consumidora, uma pagadora de impostos. Mas não é assim, somos apenas identificadas por nossa orientação sexual. Qual o motivo desta reação tão preconceituosa através de piadas? Ontem, lendo o site GLS Planet, especificamente a coluna "Tô passada" da  jornalista Graça Portela, no seu texto “Sou homossexual, e daí?”, entre outros assuntos polêmicos, ela mostra o quão são idiotas e nefastas essas piadas preconceituosas ao indicar um vídeo disponível no YouTube, (clique aqui para ver o vídeo) onde em um programa do Jô Soares, ele conta a diferença entre um homem, uma mulher e um gay. E a jornalista conclui: "é algo machista ao extremo, que esbanja preconceito. Não sei se o apresentador gostaria que fizessem algum tipo de piada do tipo “a diferença entre gordos e magros”, o que seria de péssimo gosto. Mas, não cabe mais este tipo de humor de qualidade duvidosa, usando menosprezar o outro desnecessariamente. Já mudamos de século, o mundo está caótico e violento, e rir é cada vez mais difícil, mas apelar assim é muito pobre mesmo. Falta imaginação, criatividade."

Em outro texto, a jornalista, cita a nota da coluna “Gente Boa”, do Jornal O Globo, de 23 de janeiro, intitulada “Bons modos”, onde é criticado o comportamento de um casal de rapazes: "Urge novo código de posturas para uma das novidades do Rio, o aumento de casas simpáticas à presença de casais gays. Sexta-feira, no restaurante Miam Miam, em Botafogo, dois rapazes beijavam-se deitados, pernas enroscadas, num dos sofás do bar da casa. Um comportamento que poderia ser considerado normal numa casa exclusivamente gay, transportado para outra, de público mais amplo, destoava de qualquer manual de etiqueta. Carinho em público, hetero ou gay, tem limites definidos pelos códigos sociais — e devem ser respeitados." 

Graça Portela analisa:
Embora pese o péssimo comportamento do casal de rapazes, a sociedade ainda nos classifica como promíscuos apenas pelo fato de sermos homossexuais. Ao contrário do que diz a nota, este comportamento não é “normal” em casas gays. Em locais heteros é bastante comum termos que assistir cenas constrangedoras de meninas passeando com suas mãos dentro da bermuda de rapazes, ou rapazes avaliando o silicone (digamos assim) de muitas meninas, como se fosse natural agir assim em qualquer local. Portanto, não temos a exclusividade da falta de educação, como quer induzir a nota e um casal gay não pode ser tomado como todos os gays, como está nas entrelinhas, assim como um rapaz ou uma moça mais ousados não quer dizer que todos os heteros são “assanhados”. Mudar esta imagem que parte da sociedade, meios de comunicação e jornalistas têm de nós, depende não só de nos assumirmos homossexuais perante nós mesmos e à sociedade. Mas, também de pessoas, que hoje estão em cargos executivos ou de grande evidência na mídia ou nos negócios, se dispam de preconceitos e não tenham vergonha de dizer: “Sim, sou homossexual e daí?”

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  • Postado em 22:29:20

29.01.07

Canção da plenitude

categorias: Poetando

 

“Não tenho mais os olhos de menina, nem corpo adolescente, e a pele translúcida há muito se manchou. Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura agrandada pelos anos e o peso dos fardos bons ou ruins, carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia. O que te posso dar é mais que tudo o que perdi: dou-te os meus ganhos. A maturidade que consegue rir quando em outros tempos choraria, buscar  te agradar quando antigamente quereria apenas ser amada. Posso dar-te muito mais do que beleza e juventude agora: esses dourados anos me ensinaram a amar melhor, com mais paciência e não menos ardor, a entender-te se precisas, a aguardar-te quando vais, a dar-te regaço de amante e colo de amiga, e sobretudo força, que vem do aprendizado. Isso posso te dar: um mar antigo e confiável cujas marés, mesmo se fogem, retornam, cujas correntes  ocultas não levam destroços mas o sonho interminável das sereias.”

(por Lya Luft)

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  • Postado em 21:00:35

27.01.07

Longe do Paraíso

categorias: Filme e pipoca

Título original: “Far from Heaven”
Gênero: drama
Origem: EUA
Ano de lançamento: 2002
Direção: Todd Haynes
Com: Julianne Moore, Dennis Quaid, Dennis Haysbert e Patricia Clarkson
Premiação: ganhou cinco prêmios no Independent Spirit Awards, nas seguintes categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor atriz (Julianne Moore), melhor ator coadjuvante (Dennis Quaid) e melhor fotografia. Ganhou o prêmio de melhor atriz (Julianne Moore) no Festival de Veneza.

Discrição e delicadeza são o que regem esse bonito filme de Todd Haynes, aclamadíssimo pela crítica e um tanto preterido pela Academia. Haynes faz aqui um trabalho maduro. Dennis Quaid, que foi ignorado da lista de indicações de atores coadjuvantes da Academia, está muito bem vestido no personagem, um homem quarentão saindo do armário em plena década de 50. Patricia Clarkson, como a amiga surpresamente preconceituosa, é uma presença de peso. E Dennis Haysbert, o jardineiro negro, discreto e cheio de emoção. E, claro, Julianne Moore está certamente tocante. Uma interpretação genuína de uma mulher contida, dolorida e infeliz. Ambientado na década de 50, traz todo um universo vigoroso e requintado norte-americano de maneira sutil e bela. Inicialmente, somos apresentados a uma típica família americana bem sucedida da época: Os Whitakers. Cathy Whitaker (Julianne Moore) é uma típica dona de casa da época. Submissa e prestativa, Cathy está sempre ajudando os mais necessitados, preocupada com o marido, cuidando das crianças, dando festas...Já Frank Whitaker (Dennis Quaid) é um bem sucedido empresário ocupado demais para se preocupar com os filhos e esposa entre outras coisas. Cathy e Frank tinham uma imagem forte e eram tidos como símbolos da união e da família na sociedade em que estavam inseridos; até que, numa bela noite, Cathy resolve levar o jantar de seu marido na empresa do mesmo, uma vez que Frank disse estar super atarefado e, nisso, ela pega seu marido “aos beijos e abraços” com outro homem. A vida perfeita de uma dona de casa fica em ruínas após ela descobrir a homossexualidade de seu marido e se aproximar de um homem negro, o que causa o preconceito dos vizinhos. E não se trata apenas do preconceito racial, mas também do preconceito sexual, ao tratar a homossexualidade como uma doença a qual cabia tratamento, embora com chances relativamente baixas de "cura". Frank, marido da querida Cathy, admirada e respeitada por toda a sociedade como a esposa e amiga ideal, além de cidadã exemplar, luta contra seus desejos como se quisesse se livrar de um câncer e torna-se cada vez mais amargo, distante e até agressivo por isso. Não é exatamente um filme apenas sobre a descoberta da homossexualidade. É, principalmente, um painel da sociedade americana, com toda a hipocrisia, tradicionalismo, preconceito e infelicidade. A trilha sonora de Elmer Bernstein é adequada e coadjuvante em todo o filme. A fotografia de Edward Lachman, premiada ao extremo, é apenas eficiente, com planos abertos, nunca closes, bem ao estilo do cinema da década retratada. Uma sensação ressentida e amarga, de impossibilidade de realização, contorna a trama deste elegante e belo filme. E a pergunta inicial do filme ecoa dentro de nós por cada um dos pouco mais de 100 minutos no cinema: o que aprisiona os desejos do coração? O preconceito. Rótulos estabelecidos e validados, embora muitas vezes vazios. Criamos nossas próprias armadilhas. Sobrevivemos entre as "minas" que nós próprios cravamos. Mais do que nunca, temos a certeza de que os anos 50 não estão tão distantes assim. E, mais do que nunca, sabemos que distantes estamos nós, e talvez sempre estaremos "Longe do Paraíso". O filme vale muito a pena. Um oásis em meio a tantos lançamentos descartáveis e esquecíveis.

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  • Postado em 04:25:40

26.01.07

Parada: 10 anos do Orgulho GLBT em SP

categorias: Livro e Abajur

Convite para a noite de autógrafos, referente ao livro comemorativo dos 10 anos de Parada, a se realizar na Livraria FNAC da Av. Paulista 901, no próximo dia 30/01, às 19h00. Junto à noite de autógrafos, também está sendo organizado um debate, de título "Diversidade, cultura e transformação social: 10 anos de Orgulho GLBT em São Paulo", com a presença de Sérgio Mamberti, Sergio Suiama e Vange Leonel.

"Coordenado pelas antropólogas Regina Facchini e Isadora Lins e pelo jornalista Fernando Costa Netto, o livro “Parada – 10 anos do Orgulho GLBT em SP” conta com textos de diversas personalidades como João Silvério Trevisan, Fernando Bonassi, Vange Leonel, Sérgio Mamberti, Zezé Brandão, Claudia Assef, Ferdinando Martins, Sérgio Carrara, Anna Paula Vencato e do Procurador da República, Sérgio Gardenghi Suiama. O livro traz também uma entrevista com Silvetty Montilla, animadora oficial da parada desde a primeira edição. Informações como os dados estatísticos e históricos da manifestação também estão presentes no livro. A publicação tem os textos traduzidos em inglês e faz parte da comemoração dos dez anos da manifestação de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais (GLBT) e busca traduzir seus significados. As fotografias assinadas por Ali Karakas, Alexandre Perroca, Ennio Brauns, Fernando Costa Netto, Henrique Parra, Iatã Cannabrava, Isadora Lins França, Mario Fontes e Wanderley Celestino pretendem mostrar a diversidade do evento. As imagens refletem o caráter estético da manifestação, assim como seu diferencial político irreverente e espontâneo. A publicação pode ser encontrada com exclusividade nas lojas FNAC da Avenida Paulista, Pinheiros e do Shopping Morumbi. O preço médio do livro é R$30,00."

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  • Postado em 06:38:14

25.01.07

Jogos e suposições

categorias: Definindo II

Quando a conquista amorosa vira pura estratégia

Milhares de anos foram necessários para que aprimorássemos a fala e pudéssemos nos comunicar. Ao contrário de nossos antepassados símios, conseguimos usar palavras para nos comunicar com maior acuidade, sutileza e complexidade. Hoje somos capazes de elaborar teorias, fazer abstrações e, a partir disso tudo, transformar o mundo à nossa volta. Mas, curiosamente, quando se trata de usar palavras para expressar desejos e emoções, sempre fica aquela sensação de que as frases nunca são suficientes: o que sentimos lá no fundo é muito mais complicado e parece não caber num discurso, numa declaração de amor, num e-mail ou num simples telefonema. Como se não bastasse essa incrível dificuldade de usar a fala para expressar emoções, ainda fazemos questão de embaralhar mais ainda nossas comunicações amorosas com joguinhos e suposições. Claro, ninguém gosta de confessar que faz joguinhos com suas amadas ou pretendentes, mas a verdade é que, muitas vezes, até mesmo sem querer, acabamos recorrendo a alguns truques. Por exemplo: quem já não se fez de difícil para atrair alguém? Certa vez, uma amiga minha admitiu que nunca respondia imediatamente os e-mails de uma garota que ela estava a fim e sempre esperava uns 3 ou 4 dias para enviar a resposta. Esse tipo de procedimento, ela me disse, tinha várias razões: era bom para que a menina não flagrasse a urgência de seu desejo, era uma maneira de se fazer de difícil, era um ótimo recurso para testar a firmeza da garota flagrando se ela iria insistir ou desistir logo. Eu sempre tive dificuldade para fazer esse tipo de jogo. Sou do tipo que vai e diz e já levei muito fora declarando meu amor precipitadamente. Mas, pelo menos, nunca fiquei perdendo meu tempo contando os dias necessários para responder um e-mail e, cá pra nós, acho mais fácil receber um "não" logo de cara do que ficar embaçando meses. Pra que ganhar uma garota na base da estratégia e tentar segurá-la se fazendo de difícil? Um dia, os joguinhos cansam e os truques são descobertos e perdem o efeito. Além disso, que tipo de amor é esse que só desperta o apetite se for difícil? Não, sinceramente, prefiro as garotas que não contam dias para responder e-mails e que não têm medo de declarar seu amor precipitada e abruptamente! Mas não são apenas jogos que embaralham as relações amorosas. A falta de comunicação direta pode nos levar a fazer suposições e ficar presumindo, em vez de esclarecer as coisas. Presumir, segundo o dicionário Houaiss, significa "tirar uma conclusão antecipada, baseada em indícios e suposições, e não em fatos comprovados; conjeturar, supor". Quantas vezes a mina que você estava a fim olhou na sua direção de uma maneira suspeita e você, em vez de procurar esclarecer ou checar aquele olhar, preferiu presumir? Não se sinta horrorosa se respondeu que na maior parte das vezes partiu para suposições, pois, em geral, as pessoas preferem mesmo presumir: "hummm, aquela mina tá a fim de mim, olha só o jeito que ela me encara" ou "meu, acho que aquela mina não tá a fim de mim, olha aí, ela só fica me olhando e não parte para a ação". Em ambos os casos, estando a mina a fim ou não, a pessoa que fica presumindo está, no fundo, perdendo tempo em suposições. Não seria melhor partir para a ação e checar qual é a da menina? Obviamente ela pode tergiversar, disfarçar e não esclarecer nada, mas pelo menos você fez alguma coisa, em vez de ficar apenas especulando. Infelizmente, parece ser muito mais difícil partir para ação do que ficar presumindo. Eu, apesar de não ser adepta de joguetes, volta e meia me vejo presumindo intenções e talvez isso se deva um pouco à minha condição de escritora: por força do meu ofício, sou obrigada a me colocar na posição das outras pessoas, especulando o que elas sentem. Em todo caso, joguinhos e suposições geralmente embaralham o processo amoroso. Difícil é falar claramente sobre nossas emoções. Vai ver que é porque um beijo gostoso, um abraço apertado e carinho na hora certa valem bem mais que 1000 palavras...

(por Vange Leonel - cantora, atriz, escritora e ativista)

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