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"...deixa-me respirar por muito, muito tempo, o odor dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como uma mulher sequiosa na água de uma nascente, e agitá-los com a mão como um lenço perfumado, para sacudir as recordações no ar. Se tu pudesses saber tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja sobre o perfume como a alma das outras mulheres viaja sobre a música. Os teus cabelos contêm um sonho inteiro, cheio de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me levam para climas adoráveis, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera tem o perfume dos frutos, das folhas e de pele humana. Deixa-me morder longamente as tuas tranças pesadas e negras. Enquanto mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que devoro recordações..."
(trecho adaptado do poema 'Hemisfério de uma Cabeleira'
de Baudelaire, poeta e crítico francês)