Lara & Mara*

Para mulheres que amam mulheres com leveza e beleza

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Arquivo de: Março 2007, 30

30.03.07

Meu primeiro amor

categorias: Definindo II

"Era uma “brincadeira” simples: a moçada que lá estava deveria contar quem havia sido seu primeiro amor homossexual e como ele havia se desenvolvido. De cara perdemos umas duas medrosas que saíram correndo alegando compromisso inadiável. Das que ficaram nenhuma queria começar, já que se tratava do passado, mesmo assim todas relataram o seu primeiro amor homossexual, fizeram comentários e debatemos todas as questões. Com o final da reunião, fui para casa e lá desabei e confesso que chorei feito criança, eu não tinha me dado conta do que havia acontecido na reunião, somente sozinha pude perceber o tamanho da frustração que a maioria de nós carrega ao iniciar sua vida amorosa com amores platônicos ou com dificílimas relações com pessoas mais velhas e casadas. A maioria dos primeiros amores não heterossexuais é platônica e reprimida; nascendo e morrendo em absoluto segredo e imersos em dor, vergonha e frustração. Imaginem só o peso disso no desenvolvimento de nossa vida íntima. Há um grupo jovem que tem sofrido muito menos, hoje em dia. Mas é minoria. São jovens, boa parte de classe média, dos grandes centros urbanos, cujos pais têm tido uma reação muito mais positiva em relação à sexualidade de seus filhos. Mas, como disse, é minoria. A maioria de nós continua tendo que sofrer o seu primeiro amor, ao invés de aproveitá-lo. Sofrer o primeiro amor, é claro, não é incomum para qualquer um, de qualquer orientação sexual. Todo mundo sofre. A maioria não tem coragem de dizer o que sente, não sabe como elaborar esse novo sentimento, não sabe o que fazer. Quando amamos a primeira vez somos crianças, conhecedoras somente do amor familiar. É natural que haja sofrimento e confusão. Mas a questão é que, no nosso caso, há contornos mais fortes e desagradáveis. A primeira dificuldade é que não podemos contar para ninguém, amamos nossas melhores amigas, nossas primas, nossas professoras, a namorada do irmão. Dificilmente temos nessa idade um grupo de amigas com a mesma orientação sexual que a gente. Nosso primeiro amor é calado. Intuímos, desde sempre, que nosso sentimento não pode ser dito. E não pode ser dito porque é proibido. As piadinhas da televisão e da mesa de jantar nos contam que o que sentimos não pode ser nem falado, nem comentado, nem exposto e nem mesmo sentido. É feio, errado, podre, pecado, imoral, sem-vergonhice, doença e “coisa de más companhias”. Portanto, recorremos ao silêncio. Mas o que se passa em nossa cabeça não é nada silencioso. Lidar com amores héteros aceitos e “normais” já é difícil, mas como lidar com amores não héteros? Como saber se estamos sendo correspondidas se não temos referências seguras para analisar o que está acontecendo? A confusão é maior. A auto-estima desaparece. O medo assombra. E dificilmente conseguimos concretizar, materializar aquele sentimento. É uma barra. Iniciar a vida amorosa com mulheres casadas também foi uma experiência relatada por mais de uma participante da reunião. Essa é outra situação de difícil elaboração pelas adolescentes com as quais temos tido contato. E que costuma deixar certo gosto amargo. Acredito que as mulheres casadas que se apaixonam por outras mulheres vivam um caos em suas vidas. Mas é algo que pode acontecer, isto é, você se apaixona por um rapaz, casa com ele, e de repente apaixona-se loucamente pela vizinha de sua nova casa. Acontece. E temos que ter coragem para assumir nossos sentimentos, pois senão nos transformaremos em pessoas angustiadas e insatisfeitas. Mas os relatos não são dessa natureza. Ouvimos várias estórias de adolescente que se apaixonaram por mulheres mais velhas e casadas, e que além de terem sido correspondidas, viraram suas amantes por muitos e muitos anos. E essa situação gerou, nessas jovens, enormes frustrações, dores e constrangimentos. Verdade é que a pulsão reprimida nos deixa reféns de sentimentos nem sempre positivos. Vamos, ao longo do tempo, guardando tão duramente nossos sentimentos, que a primeira que nos lança um olhar lânguido, já ganha nossa alma. E nossa primeira chance de viver um amor pode resultar em uma péssima estória. Há formas de evitar um sofrimento além do “normal”? Pode-se pensar em algumas maneiras de minimizar o sofrimento. A primeira coisa é que temos que acreditar, realmente, que somos absolutamente capazes de viver amores bons e saudáveis, que nos levem mais pelo caminho do carinho e da compreensão do que pelo caminho do inferno. Acreditar nessa nossa capacidade já nos deixa mais espertas para evitar as armadilhas de nossa histórica baixa ou inexistente auto-estima. Temos que conseguir separar, o quanto for possível, nossos sentimentos de crenças preconceituosas e homofóbicas, que nos fazem acreditar que vamos sofrer, sempre, somente por sermos não heterossexuais. Pais e mães vivem falando isso: Meu Deus, minha filha é lésbica, ela vai sofrer tanto! Antes da primeira piscada a gente já está achando que tudo vai ser uma droga. Isso é preconceito, mas é dos outros, e aceitar isso é decretar a própria prisão. Pensar em si mesma é fundamental para que possamos criar uma vida íntima feliz. E devemos passar essas idéias para nossas amigas e nossos amigos, principalmente para as/os mais jovens, afinal, somos uma comunidade enorme vivendo uma história comum, e passamos todas e todos pelas mesmas dificuldades. Não estou querendo passar uma idéia moralista de que bons primeiros amores são aqueles vividos por dois jovens solteiros da mesma idade e classe social. Essa é uma idéia muito comum e eu, definitivamente, não acredito nisso. Amor bom é o que faz bem aos amantes, e ponto final. Mas deve fazer bem igualmente aos dois, em vários sentidos e de forma consciente. Sem dúvida alguma, os amores podem ser bons e lembrados com carinho e emoção, mesmo que já finalizados. E o primeiro amor, que assim seja também, para todas nós: de uma saudade boa, de uma tristeza leve, sem angústia e sem horror, e que possa ser embalado, só por graça, por uma canção lacrimosa."

(reunião acontecida no Moleca e relatada por Lena Freitas, bibliotecária
e fundadora do MOLECA - Movimento Lésbico de Campinas)

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