Lara & Mara*

Para mulheres que amam mulheres com leveza e beleza

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Terra Blog

Categoria: Definindo I

10.04.07

Cássia e Rita

categorias: Definindo I

e a poesia virou prosa...de um amor, assim, tão grande

"Senhor, sei que nada lhe posso contar, além do passado que me atormenta e da lua que me faz lembrar. Toda a gente fingia que nada sabia do amor proibido entre Cássia e Rita. Duas mulheres, quase meninas, que se descobriram em noite de festa, na dança de roda, pulando fogueira. Que frio era aquele que Cássia sentia, cada vez que tocava os braços de Rita? Lugar não havia que pudesse acolher amor tão intenso, feito de flores, de frutos e laços. E assim, escondidas, iam se amando, Cássia e Rita, evitando os olhares da gente, que, mais do que raiva, inveja lhes tinha. Mas estava aquele amor, fadado ao fracasso, quando em noite de lua resolveram se amar à beira de um lago. Um certo Pedro Cruento, metido a valente, sabedor do destino das duas meninas, levou a todos por testemunhas, doido de amores que estava por Rita. Que visão estupenda, senhor, lhe afirmo, era aquela de corpos se amando, em rasgos de paixão inocente! Tão iguais, tão perfeitas em suas marmóreas figuras, que até hoje, não sei, meu senhor, onde começavam os cabelos de Cássia e terminavam os cachos de Rita. Mas nem a visão do amor enterneceu aquela gente que, armada de pedra, chibata e porrete, perseguiu as gazelas, arrancando-lhes peles, corações e dentes. E esta é a história de um amor proibido: Cássia e Rita, duas mulheres...quase meninas, que, ousando se amar, nunca mais foram vistas. E é Pedro Cruento, o metido a valente, que todas as noites percorre as matas, fontes e lagos, chorando as dores das chagas expostas, pedindo que a lua lhe traga de volta os risos de Cássia, os olhares de Rita. Ousa agora, senhor, perguntar-me meu nome? Pois lhe digo, senhor: meu nome é desengano, é remorso, é desalento. É dor de uma vez tendo visto o amor, afogá-lo para sempre em meus sonhos, outrora tão belos, puros, singelos. Ousa, ainda, perguntar-me meu nome? Se nome já não tenho? Se no poço sem fundo, onde sepultei minha louca procura, já não me reconheço? Ora, senhor! Da vida nada mais espero, além do clarão do luar, perdido que estou entre as lembranças de duas meninas...quase mulheres: Cássia e Rita."

(por Mariza Lourenço - escritora, advogada criminalista e consultora conselheira
do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher da cidade de Valinhos-SP)

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  • Postado em 07:29:56

10.01.07

Separação

categorias: Definindo I

"Desmontar a casa e o amor. Despregar os sentimentos das paredes e lençóis. Recolher as cortinas após a tempestade das conversas. O amor não resistiu às balas, pragas, flores e corpos de intermeio. Empilhar livros, quadros, discos e remorsos. Esperar o infernal juízo final do desamor. Vizinhos se assustam de manhã ante os destroços junto à porta: - pareciam se amar tanto! Houve um tempo: uma casa de campo, fotos em Veneza, um tempo em que sorridente o amor aglutinava festas e jantares. Amou-se um certo modo de despir-se, de pentear-se. Amou-se um sorriso e um certo modo de botar a mesa. Amou-se um certo modo de amar. No entanto, o amor bate em retirada, com suas roupas amassadas, tropas de insultos, malas desesperadas, soluços embargados. Faltou amor no amor? Gastou-se o amor no amor? Fartou-se o amor? O amor ruiu e tem pressa de ir embora envergonhado. Erguerá outra casa, o amor? Escolherá objetos, morará na praia? Viajará na neve e na neblina? Tonto, perplexo, sem rumo um corpo sai porta afora com pedaços de passado na cabeça e um impreciso futuro. No peito o coração pesa mais que uma mala de chumbo."

(por Affonso Romano de Sant'Anna)

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  • Postado em 03:04:23

19.12.06

No meu real imaginário

categorias: Definindo I

"Há minutos, ainda há poucos minutos, começou mais um dia (sei que sabes, que saberás sempre que dia é hoje). Estou aqui, em frente a este monitor, tentando ver para lá da tela, tentando, no meio deste silêncio, ouvir-te desse lado dizer-me simplesmente: «Olá. Boa noite. Dorme bem.». Será que se eu encostar mesmo o ouvido à tela te ouvirei dizer-me: «Boa noite. Dorme bem.»? E se mergulhar dentro dela? Já encostei o ouvido ao telemóvel, mesmo sabendo que não está estabelecida nenhuma chamada, mesmo que no visor apenas apareçam as horas (as horas, as horas...) e a operadora. Não está lá o teu nome a piscar, não estás a ligar-me, não queres falar comigo. Já encostei o ouvido ao telemóvel só para ver se do outro lado surgiria um fio da tua voz, mas nada. Nada. O silêncio. Só o silêncio. Então, deixo-me submergir no sono, no sonho. Fecho os olhos e peço com todas as forças que tenho que ele venha depressa, asinha, asinha! E ele às vezes faz-me a vontade, outras deixa-me alguns minutos, que chegam mesmo a transformar-se em horas, à espera. Mas é quando o sono me encharca que te vejo surgir, ali, no meu real imaginário, linda como sempre, linda como nunca. Inclinas a cabeça sobre a minha e cheiras-me os caracóis. E beijas-me a testa, o rosto, os lábios. Desperto. Sorris para mim e dizes-me: «Vá, levanta-te!» e eu ergo-me, ainda incrédula da tua presença. Levas-me pela mão a atravessar os rios, os mares, a revisitar todos os lugares que são nossos, a ouvir todas as músicas que foram cenário sonoro dos nossos encontros. Levas-me pela mão ao nosso mundo, àquele mundo só nosso que é este em que ainda agora vivo. Depois, deixas-me ficar sentada naquela cadeira onde pela primeira vez me beijaste e aproximas-te da janela. Abres a portada, sobes ao parapeito e, abrindo os braços, voltas a cabeça para mim e deixas-te afundar no escuro daquela noite em que pela primeira vez nos beijamos. Corro para ti. Deixo para trás os livros abertos, as canetas, as folhas de papel sobre a mesa e grito o teu nome tão alto que desperto estremunhada do sonho. É quando te abeiras novamente de mim, inclinas a tua cabeça sobre a minha para me cheirares os caracóis e me beijares outra vez, mais uma vez. E como na canção que tu mesma me deste a ouvir pela primeira vez, digo baixinho «Olá», enquanto tu sorris e me dizes «'Inda bem que voltaste». Por isso mesmo, nesta como em todas as noites, vou ali ter conosco, no meu real imaginário."

(texto da criadora do blog português "Assumidamente")

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  • Postado em 05:22:40

06.12.06

Sonhos sonhados

categorias: Definindo I

"Quando senti Sabrina pela primeira vez, selei um pacto com minha alma e a dela (sem que ela soubesse): dormiremos juntas. E quando pensei em "dormir juntas" o sentido seria duplo: significaria primeiro amá-la acordada em plena vigília da carne, mas, depois, na lanceada do pós-gozo, deixaria os corpos lado a lado, à deriva, adormecidas. Porque mesmo quando dormisse amaria Sabrina, em meus sonhos velados com seu sorriso e o seu perfume. E pensava. É um projeto de vida, dormiremos juntas, continuamente. A mesma ambigüidade: dormir/amar juntas, dormir/acordar juntas, ou então, dormir/morrer de amor juntas. E ver a Sabrina dormir seria negócio de muita responsabilidade, é ver minha flor da noite pedindo uma guardiã, porque era eu quem queria guardar seus sonhos, observar seus ruídos, seus movimentos. E então, nossos desejos enlaçariam raízes e seivas; o pé de uma toca a de outra, a mão espalmada corre sobre o lençol e toca o corpo da outra, e dormindo, nos abraçaríamos animadas. Significaria então que sonharíamos em cumplicidade, transbordando os poros da noite, lançando apelos silenciosos. Há pessoas que vivem juntas 25 anos - bodas de prata, 50 anos - bodas de ouro, 75 anos – bodas de diamante - ao lado do outro, e não sabem com que o outro sonha. E há quem passe uma tarde, uma noite ou uma temporada ao lado de um corpo e sabe seus sonhos para sempre. Sabrina não sabia os meus (creio eu), e quando escutei o silêncio no quarto depois de nos amarmos, me enganei quanto aos sonhos de Sabrina. Mas eu continuo sonhando, de olhos abertos, cristalizando fantasias com minha Senhora, fonte de meu desejo, pois que a amo...e ela habita meus pensamentos, de modo a fecundá-los de prazer. Um prazer mórbido, sem audácia, sem pretensão de acontecer."

(por Sarox do blog "Sou brava, sou forte, sou filha do norte", prefiro Sara Sarita)

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  • Postado em 05:44:40

24.11.06

Cansada de luxos

categorias: Definindo I

“E lá estava eu, enfiada em um vestido longo azul, com luvas lilases e salto alto. Perdi a conta de quantas mulheres me olharam. Desconcentrei até os músicos da banda. Mas minha companhia foi só o vinho e o champanhe. Não quis nenhuma das que me abordaram. Nem aquelas que me deram rosas de chocolate. Optei por voltar e ficar com aquela que diz ter saudades dos tempos em que dávamos amassos no carro, como duas adolescentes. Aquela que me deu dois botões de rosas naturais (que fizeram toda a diferença). Aquela que me deu chocolates recheados com licor, meus favoritos. Certas compensações superam qualquer luxo que a vida oferece. Ando cansada de luxos. Tenho preferido amassos dentro do carro.”

(o texto foi retirado e adaptado do "Blig Cooper",
escrito por Fernanda Lizardo, ou simplesmente Cooper)

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  • Postado em 05:25:02