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O beijo lésbico que escandalizou o Moulin Rouge

Um dos maiores ícones literários do país das belas letras, a escritora francesa Colette era também sinônimo de irreverência, escândalo e liberação femininos. Nascida em 28 de janeiro de 1873, Colette começou a escrever sob o chicotinho de seu marido, Henri Gauthier-Villars (conhecido como Willy), que a trancava num quarto até que completasse algumas dezenas de páginas. Não pensem que o marido fazia isto para o bem da esposa: Willy a explorava, mantendo Colette no anonimato, assinando ele próprio os livros da escritora e embolsando seus direitos autorais. Direitos, aliás, polpudos, pois os romances da série “Claudine” se tornaram sucesso absoluto no país. Um dia, Colette não agüentou mais e revelou ser a verdadeira autora de “Claudine na Escola”, “Claudine em Paris” e os outros que se seguiram. Aproveitando o embalo e o gosto doce do reconhecimento, pediu o divórcio e finalmente se libertou do jugo do marido-escroque (ou começou a se libertar, já que o processo do divórcio e da retomada de seus direitos autorais foi bem demorado e complicado). Desejando novas experiências a partir da liberdade inédita, Colette resolveu aventurar-se no teatro, onde conheceu a baronesa de Morny, que patrocinava eventos no Moulin Rouge. A baronesa, apelidada de Missy, logo se apaixonou por Colette e foi plenamente correspondida. A escritora, sedenta de aventuras e entusiasmada pela nova paixão, propôs à baronesa-amante que atuassem juntas, como atrizes, numa peça de sua autoria. Missy topou, mas, preocupada com possíveis reações adversas de seus pares (a nobreza francesa não admitia que um de seus membros atuasse em cabarés), resolveu atuar disfarçada, sob pseudônimo de Yissim e fazendo um papel masculino. Assim, em meio a um tórrido romance lésbico, nasceu a peça “Revê d´Égypte” (Sonho do Egito), um dos maiores escândalos do Moulin Rouge. Não se sabe muito bem quem revelou, antecipadamente, a identidade secreta de Yissim. O fato é que, na noite de estréia, vários membros da nobreza se amontoavam nas primeiras fileiras para detonar e vaiar Missy e Colette. Antes mesmo que abrissem as cortinas, já se ouviam apupos da platéia que gritava “fora, sapatões!”, enquanto atiravam ao palco cascas de laranja, almofadas dos assentos, moedas velhas e até dentes de alho. Apesar da gritaria, as duas iniciaram a performance, procurando desviar dos objetos que eram atirados. Colette fazia o papel de uma múmia que se apaixonava pelo seu descobridor, o arqueólogo interpretado por Missy. Quando então o arqueólogo tomou em seus braços a múmia seminua e deu-lhe um prolongado beijo na boca, o Moulin Rouge veio abaixo. No dia seguinte, os parentes da baronesa Missy exigiram que a polícia local proibisse o espetáculo. No entanto, a peça já havia atraído um público considerável, que fazia filas para a segunda apresentação. Como o administrador do teatro não queria desperdiçar um sucesso promissor, a produção tentou encontrar uma saída que não significasse o fim das exibições. Assim, para acalmar os ânimos dos parentes da baronesa, decidiu-se que Yissim (Missy) seria substituída pelo ator Georges Wague. Entrevistada logo após esta segunda apresentação, Colette lamentou “a covardia das pessoas que me insultaram”. Missy, mais calma, pediu que Colette “esquecesse aquelas pessoas”, ao que a escritora-atriz respondeu: “sim, contanto que eles nos deixem em paz”. Parece que seu pedido foi atendido, em parte: o espetáculo continuou em cartaz e, mesmo sem atuar, Missy permaneceu trabalhando nos bastidores. Depois de Paris, a peça viajou para outras cidades francesas. Colette e Missy continuaram enamoradas por muito tempo, provocando a claque conservadora, embaladas e inspiradas pelo beijo lésbico que escandalizou o Moulin Rouge naquele janeiro de 1907.
(texto de Vange Leonel, colunista do MixBrasil)

Colette na época da peça “Revê d´Égypte” e com 80 anos
"Benedetta Carlini quando nasceu em Vellano, Itália, no ano de 1590, já veio avisando que iria dar muita dor de cabeça. A mãe quase morreu durante o parto e o pai, desesperado, prometeu que se tudo desse certo ofereceria a cria ao Senhor. E assim foi que Benedetta, ao nascer, foi prometida para Cristo. Aos 9 anos mudou-se para um convento em Pescia, onde foi fazendo carreira de freira mística e líder do monastério. Tinha visões, premonições, aparecia com chagas e estigmas no corpo e assim foi adquirindo uma aura mística que seduziu suas irmãs, o que explicaria o fato dela ter sido eleita abadessa com tão pouca idade. Seus transes foram ficando mais intensos e seus gritos à noite eram insuportáveis. Foi então que seus superiores resolveram designar uma acompanhante para ficar ao seu lado, dormindo em sua cela: a irmã Barlolomea Crivelli. A fama de milagreira de Benedetta já se espalhava para fora dos portões do convento e o Papa Paulo V teve que pedir uma investigação mais apurada sobre os feitos místicos da abadessa da Congregação Mãe de Deus. Na primeira investigação, descobriu-se, através dos testemunhos da companheira de cela Bartolomea, que Benedetta pedia a ela que pusesse a mão em seu peito, enquanto Jesus trocava seu coração para colocar o d'Ele. E assim, com o coração de Jesus no peito, Benedetta entrava em transe e sofria horrores com aquele coração enorme e quente. Depois de vários testemunhos e de coletar várias evidências, os investigadores do Papa resolveram que as chagas e as visões de Benedetta eram legítimas e Benedetta ficou mais poderosa ainda dentro do convento. Algum tempo depois, não se sabe por quê - provavelmente a abadessa devia andar abusando de seu poder - algumas freiras começaram a fazer oposição a Benedetta e seus feitos, suas visões, suas chagas e, principalmente, à administração do convento. Tanta era a insatisfação lá dentro que chegou aos ouvidos do Papa, que ordenou uma segunda investigação. Foi aí que souberam, através da acompanhante Bartolomea, o que acontecia de verdade dentro da cela delas. Segundo o relato oficial da Igreja, "Esta irmã Benedetta, então, durante dois anos seguidos, pelo menos três vezes por semana, de noite, depois de tirar a roupa e ir para a cama, esperava que sua acompanhante tirasse a roupa e, fingindo precisar de sua ajuda, chamava-a. Quando Bartolomea se aproximava, Benedetta agarrava-a pelo braço e atirava-a à força na cama. Abraçando-a, ela a colocava embaixo de si e, beijando-a como se fosse um homem, falava-lhe palavras de amor. E ela ficava se mexendo em cima dela até que ambas se corrompiam. E assim ela a segurava por uma, duas e às vezes três horas". Quando os inquisidores pediram que Bartolomea desse mais detalhes ela disse que Benedetta "agarrava sua mão à força e, colocando-a embaixo dela, fazia-a colocar o dedo em seus genitais e mantendo-o lá ela ficava mexendo até se corromper a si mesma (...) e também à força ela punha sua própria mão embaixo da sua acompanhante e o dedo em seus genitais e a corrompia". Bartolomea escapou da punição dizendo que Benedetta se fazia de Cristo para atraí-la e enganá-la e pedia-lhe que se deitasse com ele, afinal ela era uma noiva de Cristo. Benedetta, que permaneceu em silêncio e alegou que por estar em transe não se lembrava de nada, foi condenada à prisão, onde permaneceu até morrer 35 anos depois, de febre e cólicas."
(por Cilmara Bedaque e Vange Leonel, colunistas do site Mix Brasil)
Livro: "Atos Impuros"
Sub-título: A vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença
Autora: Judith C. Brown
Editora: Brasiliense
A vida da irmã Benedetta Calini, Abadessa de um convento numa pequena cidade próxima de Florença, no princípio do séxulo XVII, a qual começou a ter visões simultaneamente religiosas e eróticas e a sofrer dores físicas consideráveis. Para a ajudar a suportar a dor foi-lhe designada como companheira uma jovem freira. Eventualmente as autoridades religiosas ficaram desconfiadas da veracidade dos seus contactos sobrenaturais com Cristo e levaram a cabo uma investigação que revelou que ela e a sua companheira estavam envolvidas numa relação sexual havia anos.
Filme: “Extramuros”
Gênero: drama
Origem: Espanha
Ano de lançamento: 1985
Direção: Miguel Picazo
Com: Carmem Maura e Mercedes Sampietro
Uma lenda hindu
"Era uma vez na Índia dois ricos fazendeiros que queriam unir suas fortunas e seu poder. Assim, quando suas esposas ficaram grávidas, eles prometeram um para o outro casar os bebês para que a união das famílias fosse selada. Mas o destino sempre reserva algumas surpresas e alguns meses depois nasceram duas garotas. Como o trato que havia sido feito era indissolúvel, o pai de uma delas resolveu levar a promessa adiante para não perder o dote e a possibilidade de unir as famílias. Criou então sua filha recém-nascida, Beeja, como um menino para que assim pudesse se casar com Teeja, a filha de seu amigo. As duas meninas cresceram juntas e, em meio às brincadeiras de criança, sempre souberam que um dia iriam se casar, conforme a combinação de suas famílias. Durante todo esse tempo Beeja nunca deu pinta de que era uma mulher. Ao completarem 15 anos os pais decidiram que era a hora de se casarem. A cerimônia, luxuosíssima, foi seguida de muitas festas pois o evento foi o mais importante da aldeia em décadas. Mas o grande acontecimento estava reservado para a noite de núpcias quando Teeja finalmente descobriu que Beeja era uma mulher também. Decepção? Não. Teeja estava apaixonada e pouco importava para ela Beeja ser uma menina. Teeja então convenceu Beeja que iriam permanecer juntas de qualquer jeito, que ela não tinha vergonha nenhuma de ser casada com outra mulher e que Beeja não iria mais precisar vestir-se como um homem. No dia seguinte elas saíram à praça como duas mulheres, o que não foi muito bem aceito pela aldeia. Escandalizados, as famílias e a população resolveram expulsar as pombinhas para bem longe da aldeia. Depois de caminharem muito, levando consigo só as roupas do corpo, Teeja e Beeja encontraram um poço abandonado onde viviam 128 fantasmas. Um deles subitamente apareceu, mas ficou surpreso porque as duas meninas pareciam não ter medo dele. Beeja então falou que, depois de tudo pelo que passaram, elas temiam mais os seres humanos que os fantasmas. O fantasma acabou se afeiçoando às meninas e deu de presente a elas um lindo lugar para morar onde nenhum homem era admitido. E lá viveram Teeja e Beeja por meses a fio até que um dia sentiram saudades de suas famílias e resolveram fazer uma visita ao antigo povoado. Chegando lá, um dos parentes comunicou-lhes que o casamento delas era uma farsa pois duas mulheres não poderiam se casar. As duas ficaram muito tristes pois, apesar de gostarem muito da vida que estavam levando junto ao poço dos fantasmas, elas desejavam viver na aldeia onde nasceram e precisavam da aceitação da sociedade local. Beeja voltou chorando para casa e pediu ao fantasma do poço que a transformasse num homem para poder viver com Teeja no povoado, junto aos seus familiares. Pedido feito, pedido realizado: Beeja foi transformada num homem e as duas se mudaram de mala e cuia para a aldeia, onde passaram a viver como marido e mulher. O relacionamento entre as duas porém não andava lá muito bem. Beeja era agora um homem, mas um homem violento que batia na própria esposa até que num dia, durante uma dessas brigas, Teeja caiu num profundo estado de inconsciência depois de apanhar muito. Ao ver a amante deitada, inconsciente, Beeja lembrou da época em que elas eram duas mulheres que se amavam e eram felizes. Beeja se desandou em lágrimas, ajoelhou-se perto da amada e desejou tanto voltar a ser mulher que, num passe de mágica, seu corpo se transformou novamente. Enquanto isso, Teeja acordou de seu sono profundo e não conteve a cara de felicidade ao ver que Beeja voltara a ser mulher. As duas caíram então uma nos braços da outra onde, diz a lenda, onde permanecem até hoje."
(por Cilmara Bedaque e Vange Leonel do site MixBrasil)
Djuna e Thelma, quase dez anos juntas
"Djuna Barnes é uma das mais renomadas e, ao mesmo tempo, desconhecida autora da literatura modernista americana do século XX, como ela mesma costumava dizer-se "a mais famosa desconhecida do século". Djuna nasceu no dia 12 de junho de 1892 nos arredores de Nova York. Sua família não era nada convencional. A avó, Zadel, era jornalista e feminista. O pai, Wald, era adepto da liberdade sexual e mantinha duas famílias - a da esposa e a da amante - sob o mesmo teto. Nem Djuna nem seus irmãos freqüentaram a escola pois Wald, um egoísta megalomaníaco que queria impor suas idéias a todos ao seu redor, era contra o sistema educacional. Quando a filha Djuna fez 16 anos, Wald resolveu que ela já estava pronta para iniciar-se sexualmente e chamou um vizinho para desvirginar a filha. Djuna nunca mais se recuperou do trauma e jamais superou o ódio que desde então alimentou pelo pai por aquela agressão nem os irmãos, pelas constantes tentativas de abusarem sexualmente dela. Quando o pai abandonou a família, Djuna foi para Nova York trabalhar como jornalista para sustentar a mãe e os irmãos. Em pouco tempo tornou-se uma das mulheres mais bem pagas do meio, graças aos seus comentários sarcásticos, suas ilustrações originais e suas matérias inusitadas. Djuna uma vez "entrevistou" uma gorila num zoológico, algo originalíssimo na época e, em outra matéria, experimentou o drama das sufragistas inglesas que, em greve de fome, foram alimentadas à força: ela mesma se submeteu ao tratamento. Depois da primeira guerra, Djuna - assim como vários americanos da sua geração - foi tentar a vida em Paris. Chegou à cidade como correspondente cultural do Theater Guild mas já era reconhecida por seu talento literário. Foi em Paris que Djuna viveu o grande amor da sua vida, com a escultora Thelma Wood. Bissexual, Djuna já havia tido casos antes, com homens e mulheres, mas a paixão por Thelma foi arrebatadora. Thelma Wood dizia ter sangue de índio sioux nas veias e com isso queria explicar sua natureza selvagem. Como muitos artistas americanos de sua geração, Thelma também foi tentar a sorte em Paris depois da Primeira Guerra. Fugindo da Lei Seca e do provincianismo americano, buscava um custo de vida barato e a cultura efervescente de Paris. Thelma dedicou-se à escultura até conhecer Djuna Barnes, que a convenceu a tentar desenhos a bico-de-pena. Elas haviam se encontrado em Berlim, se apaixonaram e, de volta a Paris, foram viver num pequeno apartamento na Rive Gauche. Mas a natureza primitiva e irrequieta de Thelma não combinava com uma vida caseira. Para piorar, Thelma era alcoólatra, nunca conseguiu levar sua carreira à sério e era mais conhecida na cidade por seu sex-appeal e sua beleza selvagem do que pelo seu trabalho.Thelma bebia demais e saía à noite pelos bares e nightclubs enquanto Djuna esperava em casa. Quando, Djuna, angustiada e impaciente, procurava Thelma pelas ruas, encontrava a namorada, bêbada e jogada pelas sarjetas. Depois de quase dez anos de idílio amoroso, a relação começou a se deteriorar graças ao ciúme de Djuna, à infidelidade e ao hobby noturno de Thelma. Com o rompimento definitivo, depois da última traição de Thelma, Djuna escreveu sua obra-prima “Nightwood” (No Bosque da Noite). Quando o livro foi publicado Thelma odiou e Djuna, sentiu-se vingada. Depois de Thelma e Paris, o mundo parecia ter acabado para Djuna. Beirando os 50 anos, Djuna foi encontrada pela amiga Peggy Guggenheim em uma clínica de desintoxicação na Inglaterra. Peggy decidiu mandar a amiga de volta a Nova Iorque. Por quarenta anos, Djuna permaneceu isolada em seu apartamento, sem receber visitas. Pobre vivia de uma mesada de suas amigas ricas Peggy e Natalie Barney. Morreu aos noventa anos, em 1982. Depois de sua morte a sua obra - não muito numerosa, com uma característica marcada pelo humor negro e ironia e considerada obscena, por insistir em temas como lesbianismo, bestialismo e incesto - foi quase toda reeditada."
(Fonte: Revista Digital MixBrasil)
Gertrude Stein e Alice B. Toklas, 38 anos juntas
Gertrude e Alice formaram um dos mais distintos casais do mundo das artes no início do século XX. Fervidíssimas, as americanas viveram durante muitos anos em Paris, em um momento de muita luz naquela cidade. Gertrude era, digamos, o "deputado" da casa e Alice fazia todo o resto, inclusive a comida.
"De Gertrude Stein é comum dizer-se que "descobriu" Picasso e que inventou a expressão "geração perdida", aplicada a Hemingway e Fitzgerald. No seu apartamento, em Paris, acotovelavam-se personagens do mundo artístico e da sociedade da época. Gertrude Stein nasceu a 3 de Fevereiro de 1874 em Allegheny, Pennsylvania, Estados Unidos e passou a maior parte da infância entre Viena e a Califórnia. Tinha oito anos quando começou a escrever, uma atividade que rapidamente se transformou em obsessão, tal como a leitura. As suas preferências iam para Shakespeare e para livros de História Natural. Na escola mostrou imediatamente o fascínio que sentia pela estrutura das frases. Em 1903, instalou-se na França com o irmão, Leo, depois de ter passado por um curso de medicina na Universidade Johns Hopkins e de ter experimentado o estudo da psicologia. Gertrude e Leo, munidos de uma generosa mesada facultada pelo irmão mais velho depois da morte do pai, tornaram-se rapidamente o centro da atividade cultural, em Paris. Leo era pintor e crítico de arte. Em Paris desenvolveram uma relação estreita com Picasso e, simultaneamente, com o seu grande rival Matisse. Braque, Van Dongen, Derain, Juan Gris, Apollinaire, Max Jacob, André Salmon, Erik Satie, Jean Cocteau, Sherwood Anderson, Ernest Hemingway, Scot Fitzgerald também faziam parte do círculo de amigos íntimos. Fisicamente, Gertrude era a típica matrona germano-americana, de corpo e traços fortes, uma figura que nada tinha de feminino. Mas o seu humor, o seu sentido de auto-estima e o seu espírito finamente irónico, aliados ao fato de ser extremamente mundana e muito "snob", faziam dela uma personagem muito atraente que dava ótimas festas e entretinha os seus amigos e convidados com ditos espirituosos e inteligentes. Foi uma escritora que inovou em literatura e uma importante mentora da arte moderna. Diz-se que ela fez com as palavras o que Picasso fez com as tintas. Gertrude Stein tem sido utilizada como ícone de grupos homossexuais. Um dos seu primeiros livros "Q.E.D." (Quod Erat Demonstrandum) ou "Things As They Are", que ela escondeu e fingiu ter esquecido durante anos, contava a história de um triângulo amoroso formado por três mulheres, uma das quais era uma imagem decalcada de si própria, no tempo em que estudava medicina. O fato de mais tarde, em Paris, fazer questão de demonstrar abertamente que desafiava as convenções, contribuiu para uma admiração por parte das comunidades homossexuais. A sua qualidade de judia tão pouco a marcou com sinais de exclusão. Em 1908 declarou seu amor a Alice, uma amiga dos seus tempos de S. Francisco, durante uma caminhada pelas montanhas: queria se casar e ela seria o marido e Alice, a esposa. Depois, Gertrude descreveu seu amor por Alice: "Admiro meu neném. Admiro sua beleza admiro sua perfeição admiro sua pureza, admiro sua ternura. Admiro seu charme admiro sua vaidade... Admiro sua dedicação admiro seu humor admiro sua inteligência admiro sua rapidez admiro seu brilho admiro sua doçura admiro sua delicadeza, admiro sua generosidade, admiro sua vaca". Só para constar, vaca era a palavra de Stein para orgasmo. Foi uma união muito feliz que durou todo o resto da vida da escritora e que foi amplamente documentada em "Autobiografia de Alice B. Toklas", escrita pela própria Gertrude Stein, aos cinquenta e oito anos, em que descreve os detalhes mais íntimos da vida de todos os dias, com as festas, os jantares, as exposições, os amores, ódios, zangas e reconciliações de amigos, inimigos ou simples conhecidos. Quando começaram a viver juntas, o momento foi especialmente dramático para Gertrude, porque se tinha separado definitivamente de Leo, com quem se mantinha em estado de guerra declarada por ele não apreciar os seus escritos. Zangaram-se e nunca mais se falaram. Durante a Primeira Grande Guerra, tanto ela como Alice fizeram questão de ficar em Paris. Compraram um Ford em muito mau estado, a que chamaram "Auntie" e usaram-no para ajudar a Cruz Vermelha e transportar feridos para a província. Durante a Segunda Grande Guerra trabalharam para a Resistência, conseguindo que os ocupantes nazis nunca descobrissem que eram judias. A forte personalidade de Gertrude marcou indestrutivelmente todos os que com ela privaram. Adorava a escrita, acima de tudo e seguiam-se depois, na ordem dos seus afetos: Alice e os seus dois cães, Pépé e Basket."
"Alice B. Toklas. Não, Alice não era escritora. Tanto que quem escreveu sua autobiografia, sim, isso mesmo, sua própria biografia, foi a sempre inusitada companheira, Gertrude. Como não podia mais escrever sua autobiografia, Alice - secretária, governanta e amante da escritora durante 38 anos, inventou um jeito - no mínimo mais saboroso - de contar sua vida na França, um livro de culinária: “O Livro de Cozinha de Alice B. Toklas”. Com uma diferença: suas receitas recolhidas das fontes mais disparatadas, inclusive de amigos ilustres, foram testadas e aprovadas com água na boca por Picasso e outras celebridades do mundo intelectual que freqüentavam a casa das duas americanas mais badaladas de Paris nas primeiras décadas do século XX. Alice B. Toklas fez mais que um livro de cozinha, fez um livro sobre a cultura gastronômica e os prazeres da boa mesa, salpicado de deliciosas reminiscências da França durante a guerra e a ocupação nazista. Mas esse livro aparentemente sobre culinária se revela um belo álbum de memórias, onde entre ervas de cheiro e ingredientes mais raros, ela vai revelando um panorama encantador sobre o que se convencionou denominar "vanguardas européias". Entre grandes guerras, entre grandes homens e mulheres, descobrimos uma singela sopa de louro e a escandalosa receita de biscoitos de haxixe, que causou furor no lançamento do volume e também descobrimos que amor se faz com arte e renúncia, com coisas aparentemente simples como picar uma cebola ou arrumar uma mesa. Amor se faz com a parte de mim que cede a você e a parte de você que cede a mim. É isso. O resto é vida, sentimento, puro devaneio compartilhado."
(informações e imagens retiradas da Internet)