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Título original: “Antonia´s Line”
Gênero: drama
Origem: Holanda/Bélgica/Inglaterra
Ano de lançamento: 1995
Direção: Maleen Gorris
Com: Willeke van Ammelrooy, Els Dottermans, Catherine ten Bruggencate
Premiação: recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1995,concorrendo com o brasileiro ‘O Quatrilho’

Antônia acorda e sabe que este é seu último dia de vida. No entanto, ela não está abalada. Faria tudo como sempre, chamaria os amigos e parentes, fecharia os olhos e morreria com o sentimento de dever cumprido. Após essa breve apresentação, que é retomada mais tarde, voltamos ao passado para acompanhar a vida da matriarca Antônia, narrada por sua bisneta. O enredo parte de sua vida, de três gerações de mulheres de forte personalidade e de uma comunidade. Sua excêntrica família - se forma aos poucos por pessoas escolhidas pelo acaso, pelo sangue e por afinidades – repleta de personagens curiosos: como uma mulher solitária, a louca Madonna (Catherine ten Bruggencate), que uiva para a lua cheia, ou o casal de "atrasados mentais" Deedee (Marina de Graaf) e Boca Mole (Jan Steen), além de um filósofo pessimista e fanático estudioso de Schopenhauer e Nietzsche conhecido como Dedo Torto (Mil Seghers), a netinha superdotada, a filha artista, a avó louca, o padre herege, a amiga que adora procriar e que ao morrer depois de ter seu 13º filho, reclama dizendo que gostaria de continuar a viver para poder gerar ainda mais, a vizinha que sofre abusos sexuais e os muitos amigos que são acolhidos por sua generosidade. Há momentos de extrema beleza quando o roteiro passeia entre a vida e a morte. A personagem mais especial do filme é a sua filha Danielle que após ter uma filha, se descobre lésbica e encontra como companheira a professora de sua menina. A diretora Marleen Gorris soube dosar momentos de alegrias, tristezas, tragédias e superação de modo eficiente e integrado, passando por discussões sobre vida, morte, filosofia, matemática e religião. Alguns o acusam de ser uma ode ao feminismo, talvez por mostrar os homens como seres secundários, sem vontade própria, e revelar a condição das mulheres e sua força, realmente o filme retrata o feminismo mas, com delicadeza, ele é um elogio à individualidade.
Curiosidades do cinema

Jennifer Aniston foi escalada para receber o prêmio 'Vanguad Awards', ontem, dia 14 de abril em Los Angeles, por conta dos beijos lésbicos que representou ao longo de sua carreira. As informações são do site Contact Music. A atriz beijou Winona Rider em 'Friends' e, recentemente, sua amiga Courteney Cox, na série 'Dirt'. Além disso, Aniston aparece em um videoclipe da roqueira Melissa Etheridge e foi a primeira convidada especial de um programa de Ellen DeGeneres, ambas homossexuais. O prêmio, concedido pelo Glaad (Gay and Lesbian Alliance Against Defamation), presta tributo a atores que ajudam a promover os direitos dos homossexuais.
A história da construção de uma identidade homossexual, no Ocidente remonta ao final do século XIX e ganha impulso quase um século depois, notadamente após os incidentes no bar nova-iorquino Stonewall Inn. Abaixo algumas datas marcantes para o movimento no mundo e no Brasil.

Quando tudo era mais difícil
Até a primeira metade do século XX, a homossexualidade foi estigmatizada, estudada, combatida e, em breves períodos, defendida.
1869 - O médico húngaro Karoly Maria Benkert cria o termo homossexual.
1897 - Surge na Alemanha o Comitê Científico Humanitário, primeiro grupo dedicado à defesa dos direitos de homossexuais. Seu fundador é o médico Magnus Hirschfeld, alemão de origem judaica.
1917 - Na Rússia, a revolução Bolchevique extingue antigas leis contra atos homossexuais. A repressão retornaria com a subida de Stálin ao poder.
1930 - Homossexuais são encaminhados ao Laboratório de Antropologia Criminal de São Paulo. São alvos de pesquisas biológicas.
1942 - A partir dessa data e até o fim da Segunda Guerra Mundial, entre 50 mil e 80 mil homossexuais são presos e enviados a campos de concentração na Alemanha. Os nazistas os estigmatizam com um triângulo rosa nos uniformes de trabalho.
1946 - Acabada a segunda Guerra, nasce a Associação dos Homossexuais Holandeses. Conhecida pelo discurso de vanguarda, a associação continua em atividade até os dias de hoje.
1948 - Publicado nos EUA “O Comportamento Sexual do Homem”, de Alfred Kinsey. O pesquisador revela que 37% dos homens americanos tiveram pelo menos uma experiência homossexual.
O começo da virada
A partir da mobilização de ativistas americanos, gays e lésbicas ganham as ruas, defendem direitos e encaram a Aids. Começam a contabilizar vitórias.
1969 - Homens e mulheres homossexuais enfrentam policiais que queriam interditar o bar Stonewall Inn, freqüentado por gays no Village, em Nova York. O confronto prolonga-se por dias. É a decolagem do movimento nos EUA. O dia 28 de junho passa a ser conhecido como Gay Pride Day (Dia do Orgulho Gay) e marca o início do movimento homossexual organizado nos EUA.
1970 - O movimento se radicaliza com a criação da Frente de Libertação Gay, em Londres. Dois anos depois, a primeira marcha do Orgulho Gay.
1972 - Dois mil participantes fazem a primeira Marcha do Orgulho Gay, também em Londres.
1978 - Em abril, nasce no Rio o jornal Lampião, editado por jornalistas, intelectuais e artistas homossexuais. É o início efetivo do movimento no Brasil. O jornal foi o principal veículo de comunicação da comunidade homossexual, e existiu até 1981.
1979 - Surge em São Paulo o ‘Somos’, primeiro grupo organizado de homossexuais do país.
1980 - É fundado o Grupo Gay da Bahia (GGB). O grupo é um dos mais atuantes do país e é reconhecido internacionalmente. É diagnosticado, em São Paulo o primeiro caso de Aids no país.
1989 - A Organização Mundial de Saúde retira a homossexualidade do rol das doenças.
1993 - É fundado o Grupo Arco-Íris no Rio de Janeiro.
1995 - Acontece em junho, no Rio de Janeiro, a 17ª Conferência Mundial da Ilga (International Lesbian and Gay Association). Ao final da conferência, os participantes promovem uma marcha que ficaria conhecida como a Primeira Parada Gay do Brasil, na Avenida Atlântica. Também nesse ano, a deputada federal Marta Suplicy (PT/SP) apresenta o projeto de Parceria Civil Registrada.
1999 - Uma resolução do Conselho Federal de Psicologia Brasileiro afirma que a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio, nem perversão. A parada gay deste ano reúne 700 mil pessoas em Nova York, 200 mil em Paris e 20 mil em São Paulo. Em Brasília, o secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, pede que o Código Penal qualifique como crime a discriminação a gays.
As igrejas entraram na mira dos supostos pecadores. Entre católicos e metodistas, denunciou-se nos EUA o afastamento de padres e pastores que ousaram celebrar uniões homossexuais. Em compensação, criou-se a Mesa-Redonda da Liderança Nacional Religiosa, organização que reúne dissidentes de diversos credos para defender os direitos de gays e lésbicas.
Empresas assumem a existência dos "diferentes" no mercado de trabalho americano. Multinacionais de peso, como a General Motors, a IBM e a Johnson & Johnson, desenham "políticas afirmativas" para evitar discriminação e investem em campanhas publicitárias. A cerveja Bud Light, por exemplo, fatura com o slogan "Seja Você Mesmo", acoplado à imagem de dois braços musculosos de mãos dadas.
O poder de fogo da minoria chegou à política: na corrida para a Casa Branca, o candidato republicano George W. Bush e o rival democrata Al Gore se atropelaram em acenos ao eleitorado. Na Inglaterra, onde três homossexuais integram o gabinete do primeiro-ministro Tony Blair, se propagou a bandeira do novo milênio: Qualidade Gay.
No Congresso Nacional Brasileiro, um grupo de alunos parou em frente a um cartaz perto do Salão Nobre. Um deles leu e disse em voz alta: - União Civil entre homossexuais já!? Que porra é essa? E saíram indignados com o que leram. Assim como esse grupo de alunos muitos deputados e senadores não têm consciência da forte discriminação e falta de proteção aos direitos dos homossexuais. Para que essa cena nunca mais se repita, foi lançado, no dia 08/10/2003 a Frente Parlamentar pela Livre Expressão Sexual onde parlamentares trabalham com o propósito de executar ações que combatam a homofobia e articular apresentações e aprovações de propostas legislativas de nosso interesse. Nesta data eram 15 parlamentares. No dia 21/03/2007 foi lançada a Frente Parlamentar pela cidadania GLBT, uma versão atualizada da extinta Frente Parlamentar Mista pela Livre Expressão Sexual, que já conta com 200 parlamentares.

Mãe de jovem gay defende direito sexual
“Não precisa ser gay nem ter medo de ser chamado de gay para participar. Apoiem nossa causa e estarão apoiando um parente ou, quem sabe, um filho, no futuro”. A citação faz parte da carta “O que é o amor?”, lida em fevereiro de 2007 pela dona-de-casa Adalgiza Lopes Assis de Freitas, 50 anos, apoiadora da Associação de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (AAGLBT), emocionando os participantes da reunião ordinária da Câmara Municipal de Limoeiro do Norte, que aprovou o Dia da Consciência Homossexual. Além disso, o prefeito de Limoeiro, João Dilmar, assinou documento em que defende os “direitos sexuais” e condena qualquer forma de discriminação na sociedade. Conquista como essa é rara no Ceará. Mãe de um jovem homossexual de 26 anos, Adalgiza Lopes representa as mães que têm filhos gays ou lésbicas dentro de casa, lida com o conflito no âmbito familiar e da sociedade, e defende o direito de que “o importante é ser feliz, independente do gênero sexual”. “Percebi que o meu filho era diferente, ele não saia com os outros meninos para jogar bola, preferia ficar em casa, ou brincar enfeitando as bonecas das amiguinhas, experimentar minhas roupas. Quando ele era criança, levei para uma psicóloga, para saber se não era algum problema”, conta Adalgiza. "Meu filho namorou garotas lindíssimas, mas via que não sentia atração por elas como por um homem. Hoje, entendo perfeitamente que devemos conviver com as diferenças, e isso não é doença. Tratamos do assunto abertamente em casa. Quero meu filho feliz”.
e a poesia virou prosa...de um amor, assim, tão grande

"Senhor, sei que nada lhe posso contar, além do passado que me atormenta e da lua que me faz lembrar. Toda a gente fingia que nada sabia do amor proibido entre Cássia e Rita. Duas mulheres, quase meninas, que se descobriram em noite de festa, na dança de roda, pulando fogueira. Que frio era aquele que Cássia sentia, cada vez que tocava os braços de Rita? Lugar não havia que pudesse acolher amor tão intenso, feito de flores, de frutos e laços. E assim, escondidas, iam se amando, Cássia e Rita, evitando os olhares da gente, que, mais do que raiva, inveja lhes tinha. Mas estava aquele amor, fadado ao fracasso, quando em noite de lua resolveram se amar à beira de um lago. Um certo Pedro Cruento, metido a valente, sabedor do destino das duas meninas, levou a todos por testemunhas, doido de amores que estava por Rita. Que visão estupenda, senhor, lhe afirmo, era aquela de corpos se amando, em rasgos de paixão inocente! Tão iguais, tão perfeitas em suas marmóreas figuras, que até hoje, não sei, meu senhor, onde começavam os cabelos de Cássia e terminavam os cachos de Rita. Mas nem a visão do amor enterneceu aquela gente que, armada de pedra, chibata e porrete, perseguiu as gazelas, arrancando-lhes peles, corações e dentes. E esta é a história de um amor proibido: Cássia e Rita, duas mulheres...quase meninas, que, ousando se amar, nunca mais foram vistas. E é Pedro Cruento, o metido a valente, que todas as noites percorre as matas, fontes e lagos, chorando as dores das chagas expostas, pedindo que a lua lhe traga de volta os risos de Cássia, os olhares de Rita. Ousa agora, senhor, perguntar-me meu nome? Pois lhe digo, senhor: meu nome é desengano, é remorso, é desalento. É dor de uma vez tendo visto o amor, afogá-lo para sempre em meus sonhos, outrora tão belos, puros, singelos. Ousa, ainda, perguntar-me meu nome? Se nome já não tenho? Se no poço sem fundo, onde sepultei minha louca procura, já não me reconheço? Ora, senhor! Da vida nada mais espero, além do clarão do luar, perdido que estou entre as lembranças de duas meninas...quase mulheres: Cássia e Rita."
(por Mariza Lourenço - escritora, advogada criminalista e consultora conselheira
do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher da cidade de Valinhos-SP)

Loren Cameron nasceu no estado de Arkansas em 1959 e era uma garota da fazenda, dessas tipo molecona. Desde cedo percebeu que gostava de garotas e se identificava muito com os homens. Quando mudou-se para San Francisco, Califórnia, amadureceu a idéia de trocar de sexo pois sentia-se muito desconfortável com seu próprio gênero - feminino. Começou uma batelada de exames, sessões de terapia, consultou-se com médicos e cirurgiões e finalmente começou a tomar hormônios masculinos. Foi quando começou a fotografar sua transformação, um processo que ela mesma chamou de “reinvent myself” (reinventando eu mesma). Além dos hormônios, Loren fez uma mastectomia, começou a fazer musculação mas não operou seus órgãos genitais, ou seja, não fez o implante de pênis (faloplastia). Ela diz que seu clitóris aumentou com os hormônios e que pra ela isso é suficiente. O desejo de fotografar toda a sua transformação tomou proporções maiores e Cameron passou a fotografar outros FTM (Female to Male, definição de mulher que tornou-se homem). Cameron diz que “o que era inicialmente uma documentação da minha jornada pessoal evoluiu gradualmente para uma missão desapaixonada. Impulsivamente, comecei a fotografar outros transexuais que conhecia, sentindo-me compelida a fazer imagens de seus triunfos físicos e emocionais. Fui levada a isso pela minha necessidade de ser validada e quis, em troca, validá-las. Quis que o mundo nos visse, quero dizer, que realmente nos visse”. Loren Cameron dedicou sua carreira de fotógrafo a pesquisar e registrar sua própria experiência como transexual. Depois de uma adolescência difícil em Arkansas, a então jovem Cameron decidiu conduzir sua vida com um corpo masculino e assumir valentemente o processo de transformação. Desde que tomou esta decisão radical, tornou-se um ativo defensor dos direitos humanos, expondo além de suas fotografias, escritos e comunicações sobre o tema.
(sinopse de Cilmara Bedoque e Vange Leonel do site Mix Brasil)
Livros de Loren Cameron

Livro: “Body Alchemy”
Sub-título: Transsexual Portraits
Editora: Cleis Press 1996
É Loren na capa, foto da série “God’s Will”
Loren é um fotógrafo autodidata cujas fotografias formam uma exposição que já circulou algumas cidades dos Estados Unidos e culminou com um livro, “Body Alchemy - Transsexual Portraits”. O livro, além do interesse documental, traz belas fotos e depoimentos tocantes. Os retratos de FTMs tipo “antes e depois” são impressionantes e as fotos de órgãos sexuais pós operados lembram um pouco Mapplethorpe** pela maneira direta e escancarada de mostrar o que ninguém quer ver.
**Robert Mapplethorpe era um fotógrafo americano que se define por grande rigor em todos os aspectos da sua obra, criativos ou técnicos. Conhecido como o documentarista da cena sadomasoquista gay, Robert Mapplethorpe percorreu um longo caminho entre sua infância no Queens, Nova Iorque, até o submundo GLS mais radical.

Livro: “Man Tool”
Sub-título: The Nuts and Bolts of Female-to-Male Surgery
Editora: Zero eBooks 2001

Livro: Photographs by Loren Cameron Volume 1
Livro: Photographs by Loren Cameron Volume 2
Para o projeto Corpos Pintados Cameron fotografou muitos indivíduos que, assim como ele, deram o passo definitivo para trocarem fisicamente de sexo. Para a Oficina Experimental, além de compartilhar sua própria realidade através de auto-retratos, apresentou uma série de fotografias de homens e mulheres que também trocaram seu aspecto corporal. Ainda que, geralmente, este tema é circunscrito em sua conotação sexual; para ser realmente compreendido deve ser considerado unicamente como um ajuste da identidade.

Livro: Cameron Correspondence 1997-2001
Este livro narra as vivências que o fotógrafo Loren Cameron teve durante a preparação de seus livros ‘Cameron, volumes 1 e 2’. Através da correspondência de Cameron com Bárbara, uma sul-americana fictícia, descreve com irreverente humor e em um idioma ágil e coloquial, o processo de recriar-se a si mesmo e suas dificuldades. Neste livro, Cameron conta como cada pessoa se ajusta à sua nova realidade, como se movem em uma sociedade pouco preparada para entender tais alterações e como ele mesmo trabalha para difundir uma maior compreensão dos transexuais. Cameron: correspondência 1997-2001 é uma atrevida e reveladora antologia de seres que buscam, como qualquer um de nós, sentirem-se confortáveis com seus corpos.
O beijo lésbico que escandalizou o Moulin Rouge

Um dos maiores ícones literários do país das belas letras, a escritora francesa Colette era também sinônimo de irreverência, escândalo e liberação femininos. Nascida em 28 de janeiro de 1873, Colette começou a escrever sob o chicotinho de seu marido, Henri Gauthier-Villars (conhecido como Willy), que a trancava num quarto até que completasse algumas dezenas de páginas. Não pensem que o marido fazia isto para o bem da esposa: Willy a explorava, mantendo Colette no anonimato, assinando ele próprio os livros da escritora e embolsando seus direitos autorais. Direitos, aliás, polpudos, pois os romances da série “Claudine” se tornaram sucesso absoluto no país. Um dia, Colette não agüentou mais e revelou ser a verdadeira autora de “Claudine na Escola”, “Claudine em Paris” e os outros que se seguiram. Aproveitando o embalo e o gosto doce do reconhecimento, pediu o divórcio e finalmente se libertou do jugo do marido-escroque (ou começou a se libertar, já que o processo do divórcio e da retomada de seus direitos autorais foi bem demorado e complicado). Desejando novas experiências a partir da liberdade inédita, Colette resolveu aventurar-se no teatro, onde conheceu a baronesa de Morny, que patrocinava eventos no Moulin Rouge. A baronesa, apelidada de Missy, logo se apaixonou por Colette e foi plenamente correspondida. A escritora, sedenta de aventuras e entusiasmada pela nova paixão, propôs à baronesa-amante que atuassem juntas, como atrizes, numa peça de sua autoria. Missy topou, mas, preocupada com possíveis reações adversas de seus pares (a nobreza francesa não admitia que um de seus membros atuasse em cabarés), resolveu atuar disfarçada, sob pseudônimo de Yissim e fazendo um papel masculino. Assim, em meio a um tórrido romance lésbico, nasceu a peça “Revê d´Égypte” (Sonho do Egito), um dos maiores escândalos do Moulin Rouge. Não se sabe muito bem quem revelou, antecipadamente, a identidade secreta de Yissim. O fato é que, na noite de estréia, vários membros da nobreza se amontoavam nas primeiras fileiras para detonar e vaiar Missy e Colette. Antes mesmo que abrissem as cortinas, já se ouviam apupos da platéia que gritava “fora, sapatões!”, enquanto atiravam ao palco cascas de laranja, almofadas dos assentos, moedas velhas e até dentes de alho. Apesar da gritaria, as duas iniciaram a performance, procurando desviar dos objetos que eram atirados. Colette fazia o papel de uma múmia que se apaixonava pelo seu descobridor, o arqueólogo interpretado por Missy. Quando então o arqueólogo tomou em seus braços a múmia seminua e deu-lhe um prolongado beijo na boca, o Moulin Rouge veio abaixo. No dia seguinte, os parentes da baronesa Missy exigiram que a polícia local proibisse o espetáculo. No entanto, a peça já havia atraído um público considerável, que fazia filas para a segunda apresentação. Como o administrador do teatro não queria desperdiçar um sucesso promissor, a produção tentou encontrar uma saída que não significasse o fim das exibições. Assim, para acalmar os ânimos dos parentes da baronesa, decidiu-se que Yissim (Missy) seria substituída pelo ator Georges Wague. Entrevistada logo após esta segunda apresentação, Colette lamentou “a covardia das pessoas que me insultaram”. Missy, mais calma, pediu que Colette “esquecesse aquelas pessoas”, ao que a escritora-atriz respondeu: “sim, contanto que eles nos deixem em paz”. Parece que seu pedido foi atendido, em parte: o espetáculo continuou em cartaz e, mesmo sem atuar, Missy permaneceu trabalhando nos bastidores. Depois de Paris, a peça viajou para outras cidades francesas. Colette e Missy continuaram enamoradas por muito tempo, provocando a claque conservadora, embaladas e inspiradas pelo beijo lésbico que escandalizou o Moulin Rouge naquele janeiro de 1907.
(texto de Vange Leonel, colunista do MixBrasil)

Colette na época da peça “Revê d´Égypte” e com 80 anos