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"Há minutos, ainda há poucos minutos, começou mais um dia (sei que sabes, que saberás sempre que dia é hoje). Estou aqui, em frente a este monitor, tentando ver para lá da tela, tentando, no meio deste silêncio, ouvir-te desse lado dizer-me simplesmente: «Olá. Boa noite. Dorme bem.». Será que se eu encostar mesmo o ouvido à tela te ouvirei dizer-me: «Boa noite. Dorme bem.»? E se mergulhar dentro dela? Já encostei o ouvido ao telemóvel, mesmo sabendo que não está estabelecida nenhuma chamada, mesmo que no visor apenas apareçam as horas (as horas, as horas...) e a operadora. Não está lá o teu nome a piscar, não estás a ligar-me, não queres falar comigo. Já encostei o ouvido ao telemóvel só para ver se do outro lado surgiria um fio da tua voz, mas nada. Nada. O silêncio. Só o silêncio. Então, deixo-me submergir no sono, no sonho. Fecho os olhos e peço com todas as forças que tenho que ele venha depressa, asinha, asinha! E ele às vezes faz-me a vontade, outras deixa-me alguns minutos, que chegam mesmo a transformar-se em horas, à espera. Mas é quando o sono me encharca que te vejo surgir, ali, no meu real imaginário, linda como sempre, linda como nunca. Inclinas a cabeça sobre a minha e cheiras-me os caracóis. E beijas-me a testa, o rosto, os lábios. Desperto. Sorris para mim e dizes-me: «Vá, levanta-te!» e eu ergo-me, ainda incrédula da tua presença. Levas-me pela mão a atravessar os rios, os mares, a revisitar todos os lugares que são nossos, a ouvir todas as músicas que foram cenário sonoro dos nossos encontros. Levas-me pela mão ao nosso mundo, àquele mundo só nosso que é este em que ainda agora vivo. Depois, deixas-me ficar sentada naquela cadeira onde pela primeira vez me beijaste e aproximas-te da janela. Abres a portada, sobes ao parapeito e, abrindo os braços, voltas a cabeça para mim e deixas-te afundar no escuro daquela noite em que pela primeira vez nos beijamos. Corro para ti. Deixo para trás os livros abertos, as canetas, as folhas de papel sobre a mesa e grito o teu nome tão alto que desperto estremunhada do sonho. É quando te abeiras novamente de mim, inclinas a tua cabeça sobre a minha para me cheirares os caracóis e me beijares outra vez, mais uma vez. E como na canção que tu mesma me deste a ouvir pela primeira vez, digo baixinho «Olá», enquanto tu sorris e me dizes «'Inda bem que voltaste». Por isso mesmo, nesta como em todas as noites, vou ali ter conosco, no meu real imaginário."
(texto da criadora do blog português "Assumidamente")
criado por Mara*
05:22:40